Sobre Gilmore Girls, nostalgia e expectativas

Gilmore Girls é uma das séries da minha vida. Quando pegava um episódio passando no Warner Channel, me agoniava a velocidade com que Lorelai e Rory conversavam, expondo o meu inglês mixuruca. Foi só lá pelos meus 19 que me rendi à série, quando já havia me tornado professora em um curso de idiomas e não havia mais aquele receio bobo de não acompanhar o diálogo. Logo me apaixonei por Stars Hollow e seus personagens adoráveis e excêntricos. Tanto que, pouco tempo depois, comprei todas as temporadas em DVD e assisti a série com minha mãe, também solteira e batalhadora. Eu, também, filha única.

Mas assim como a vida real raramente corresponde à ficção (e vice-versa), eu nunca fui Rory, e minha mãe era dificilmente uma Lorelai. Sempre seríamos unidas pela forte relação de mãe e filha, porém sem abrir mão das nossas diferenças. A série ajudou a colocar muitas delas em pauta, acredito até que tenha melhorado nossa comunicação, mas eu não virei a Rory, ela não virou a Lorelai, e a vida seguiu, do nosso jeito.

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Se é que eu esperava que Gilmore Girls fosse um catalisador no nosso relacionamento, certamente estaria fadada do fracasso. Mas essa é só uma das tantas expectativas que existem em torno da série, seus personagens, sua criadora. Gilmore Girls é uma daquelas séries que cativam como poucas, o que cria uma relação de proximidade inevitável com seus fãs. Eles se importam de verdade, tomam partido, torcem. E criam, a seu jeito, a vida que as garotas Gilmore levaram após o fim da sétima temporada.

No dia 25/11/2016, essa expectativa acabou. Amy Sherman-Palladino, a mente por trás da série, ganhou quatro episódios de uma hora e meia para guiar a história de volta para o ponto que ela queria, há 10 anos, quando encerrou sua parceria com a Warner e deixou a produção nas mãos de David S. Rosenthal. Graças à Netflix e a uma intensa campanha de fãs ao longo dos anos, a showrunner teve a oportunidade de mostrar a todo mundo quais eram, afinal, as tais quatro palavras que ela sempre imaginou para o fim da série.

Mas esse é um texto sem spoilers, por isso fique tranquila (o), aqui não há grandes revelações sobre a trama. Não é preciso saber quais são as quatro palavras para já imaginar: o público recebeu a nova Rory com certa estranheza. Isso porque algumas atitudes suas parecem não condizer com a menina tímida que conhecemos há 15 anos. Já no trailer, fica claro: ela anda meio perdida na vida, procurando seu lugar no mundo após a carreira no jornalismo não dar exatamente onde ela imaginava.

É aí que Rory se mostra indecisa em relação à sua vida amorosa, maltratando um namorado que não lhe fez nenhum mal e até se envolvendo com um homem comprometido (pra não falar num cara vestido de wookie). Não nego: fiquei um pouco decepcionada. Imaginava que, aos 32, Rory já tivesse aprendido com erros do passado (cof cof Dean cof cof) e não cedesse tão facilmente a certas inseguranças, que nada tinham a ver com os rapazes. O momento de Rory no revival é de encontrar o seu lugar no mundo, e sua vida amorosa reflete essa busca caótica. E, vendo por esse lado, percebi que, no fim das contas, essa não é e nunca foi uma história sobre esses caras. É sobre mãe e filha, seu relacionamento, suas identidades e personalidades fortes e sobre encontrar seu próprio caminho.

Relembrei alguns dos piores momentos das sete temporadas anteriores – estava tudo fresco na memória, graças à maratona que eu e Daniel fizemos. E percebi que na maioria deles, Rory saía de seu personagem certinho e ousava fazer diferente. Não raro, criava uma confusão enorme, tinha consequências dramáticas e acabava por crescer um pouquinho. Ao cortar o cordão umbilical, Rory tentava aprender com as próprias pernas – nem que fosse repetindo os mesmos erros de sua mãe. Ela precisava disso.

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E entendo que ela também precisava fazer umas besteiras. Daquelas de quem tem 32 anos, mas não precisa ter tudo resolvido na vida. Eu mesma tenho quase 29 e até pouco tempo atrás, cometia erros de julgamento igualmente adolescentes quando o assunto era garotos. Mas aprendi, assim como Rory pareceu ter aprendido ao fim do último episódio. Sempre me vi muito no personagem dela, por ser de uma cidade pequena, ter crescido num ambiente escolar de altas expectativas e por ter uma necessidade quase patológica de agradar. Essa falsa bolha de proteção acaba estourando um dia, afinal todo mundo tem que sair e encarar o mundo de frente. Por isso, consigo entender e aceitar a confusão de Rory e seu jeito de lidar com uma situação que vai muito além de Dean, Jess, Logan, Paul.

Eles são só personagens em uma história maior que eles. São importantes, bem construídos, mas que não resumem a jornada das meninas Gilmore. Dá pra dizer o mesmo de cada namorado da Lorelai (que, vamos combinar, nem sempre toma as melhores decisões), mas pouco importa. O que conta mesmo é que tivemos mais um gostinho de Stars Hollow, com tudo que tem direito: festivais na praça, neve, lanchonete do Luke, Kirk e seus empregos estranhos, ensaios da Hep Alien, referências culturais diversas, aparições de Paris Geller e Emily Gilmore, pra assustar todo mundo, e a cereja do bolo: um belo adeus a Edward Hermann e seu eterno Richard.

Foi perfeito? Foi não. Mas valeu por colocar em xeque nossas expectativas e noções de certo x errado – e, claro, por aquele quentinho no coração que a gente só sente quando volta pra casa.

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2 Comentários

  1. Maravilhoso texto como sempre! 😀
    Sabe o que eu fiquei mais bolada? Descobrir que Stars Hollow tinha uma piscina pública e nós nunca ficamos sabendo! :O

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