Dois discos sobre ser mulher, raça e identidade

Uma das coisas mais legais da música é que ela costuma ser um bom retrato de seu tempo. Ou, melhor ainda, ela transforma o momento histórico de que faz parte, contribui para debates sociais e culturais, deixa a sua marca em uma geração inteira. Talvez não dê pra sentir agora, mas é bem possível que num futuro não muito distante, a gente olhe pra 2014, 2015, 2016 como anos que, apesar de tudo, mudaram o discurso. Que colocaram no centro do debate sobre o mundo que queremos questões como raça, gênero, sexualidade, diferenças socioeconômicas, mais diversidade e menos xenofobia e violência policial.

Se é bem verdade que parece que o discurso mais conservador está ganhando (vide Trump presidente – nem vou comentar o absurdo que é digitar isso e saber que é verdade), por outro lado está bem claro que essas pautas não vão a lugar algum. Agora as mulheres estão empoderadas e pessoas que sofrem com preconceito racial todos os dias estão munidas de câmeras que mostram cada dura, cada tiro a queima-roupa.

Os tempos são outros, e a música também. Alguns fenômenos como “Lemonade”, de Beyoncé, e “To pimp a butterfly”, de Kendrick Lamar, seriam completamente diferentes 5, 10 anos atrás. E o mesmo vale para dois discos que saíram nas últimas semanas:

Alicia Keys – HERE

alicia-keys-here

Alicia declarou na melhor newsletter de todos os tempos que ia parar de usar maquiagem. Ainda há quem duvide dessa “cara lavada” completa, mas lá está ela na capa do novo disco, cheia de sardas, com cabelo natural e totalmente dona de si. Essa reconstrução visual foi muito importante para esse novo momento na carreira da cantora, que passou os últimos anos tentando se encaixar no padrão “mulherão popstar” – e, se vocês bem se lembram da época de “Fallin'”, nunca foi a onda dela.

Mas Alicia cresceu, amadureceu, mudou seu som e compôs um disco que é um retrato da vida de uma mulher negra na América – e se você acha que isso se resume a usar ou não maquiagem, está enganado. Tem uma música sobre isso? Tem sim, “Girl can’t be herself”. Também tem sobre ser mãe (“Blended Family”) e sobre se sentir diminuída pela cor da sua pele (“Glow”, “More Than We Know”). Mas Alicia ousou sair das limitações que os termos “mulher” e “negra” lhe impõem e fala sobre espiritualidade e fé (“Hallelujah”); discursos de ódio e um mundo dividido (“Holy War”); homofobia (“Where do we begin now”).

Talvez o disco seja, também, uma ode a Nova York, como a própria Alicia já definiu, exaltando a sua cultura de rua, seus bairros, sua diversidade. Mas muito mais do que isso, “HERE” é uma declaração de que mulheres negras não cabem em um estereótipo e não se resumem pelo preconceito, pelos salários menores, pela falta de oportunidade, embora tudo isso faça parte de suas vidas. A melhor forma de fazer isso é expandir o espectro musical do álbum, indo de uma balada ao violão para um hip hop, mesclando com momentos de spoken word completamente naturais, em que Alicia discute no estúdio o conteúdo de algumas das letras.

Talvez Alicia Keys esteja em uma fase de reconstrução, mas “HERE” me parece um ótimo primeiro passo nessa direção.

Solange – A seat at the table

solange_xyeoks

“A seat at the table” é exatamente aquilo que seu título entrega: um chamado, um grito de quem, de fato, não tem lugar à mesa (aquela onde as decisões são tomadas, onde há dinheiro e poder). Solange construiu um poderoso trabalho, esse sim voltado para a questão de raça e a situação da mulher negra, mas também de autodescoberta. Em “Rise”, que abre o disco, ela fala sobre a importância de não perder a sua essência, de ser quem se é em diferentes momentos da vida. “Weary” também tem esse caráter pessoal, um desabafo de quem se cansou do mundo como está e de não perder o propósito de fazer melhor, fazer diferente.

Alguns pontos altos do disco podem ter essa mesma verve autobiográfica – ou, por outro lado, podem estar falando de algo ainda mais profundo. “Cranes in the sky” tem essa duplicidade, retratando uma personagem que queria superar um momento difícil comprando coisas, bebendo demais. “Estourei o cartão, achei que um vestido fosse melhorar as coisas, tentei trabalhar, tentei dormir, mas não adiantou nada” – é mais ou menos o que ela canta. Já em “Don’t touch my hair”, essa negritude fica mais explícita. “Não toque no meu cabelo” vira “Não toque na minha coroa”, porque é isso que o black power é – uma expressão de poder, de autoestima, de autoconhecimento e orgulho de suas origens. Esse mesmo tópico de expressão pessoal aparece em “Don’t you wait”, em que Solange aborda quem a critica por mudar sua sonoridade sem levar em consideração “a mão que a alimenta”, ou seja, quem comprava seus discos quando ela tinha uma identidade mais indie. Na faixa, ela diz pra quem quiser ouvir: você não pode se vangloriar de ser “a mão que me alimenta” e ao mesmo tempo não me permitir a liberdade de ser quem eu quiser ser.

Em “Mad”, ela ataca outro estereótipo: o da mulher negra raivosa. Embora muitas mulheres, de todas as etnias, possam se identificar com essa sensação – de ser tratada como histérica quando você, como qualquer ser humano, também fica puta da vida de vez em quando -, no caso das mulheres negras existe todo um fator cultural. Em algum momento na história, foi estabelecido que todas elas são assim, o que banaliza o discurso de uma pessoa que tem muito a dizer.

No espírito de abordar a falta de representatividade negra na “mesa” do título, vem “Where do we go”, que toca na questão da gentrificação das comunidades predominantemente negras que, por ganharem o interesse de moradores brancos e mais ricos, levam essas famílias a largarem seus lares completamente modificados por um novo panorama socioeconômico. Já em “Scales”, ela avisa: cuidado ao deixar que outros determinem o seu valor. Em “F.U.B.U.”, uma proclamação: tomem posse do que é seu, do que é feito pra vocês. Aqui, Solange conclama a comunidade negra para assumir sua voz e cantar em seus próprios termos. Pra completar, tudo isso é permeado por interlúdios que complementam os discursos das letras.

Deu pra notar que é um disco enorme? No total, são 21 faixas. Quando se chega ao fim, é possível notar que Solange precisava fazer esse desabafo e transformar essa problemática em empoderamento. E talvez ela tenha conseguido, ao lançar um dos melhores discos de 2016.

Ouçam Solange, ouçam Alicia, ouçam mulheres, ouçam mulheres negras. Elas são incríveis e têm muito a dizer. Somos sortudos de estarmos aqui pra ouvir.

Continue Reading

5 sons de Minas Gerais

Quando você pensa em Minas Gerais, o que vem em mente? Um cafezinho coado na hora, uma broa de fubá, um trem passando à distância, talvez? Esse é um cenário tipicamente mineiro e nem um pouco falso – Minas tem muito disso mesmo. Acho que a gente associa a conforto, receptividade, simplicidade. E, claro, à música que ficou tipicamente conhecida como a dos mineiros – Clube da Esquina, Pato Fu, Flavio Venturini, João Bosco, Vander Lee. São excelentes exemplos do que o estado tem  a oferecer, mas não dá pra dizer que são os únicos – afinal, estamos falando da origem de Só Pra Contrariar, Emmerson Nogueira e Clara Nunes, só pra citar alguns sucessos improváveis de surgirem em Uberlândia, Juiz de Fora e Paraopeba, se a gente só olhar pro estereótipo.

E dá pra fugir dessas obviedades? Dá sim. A começar pela cena efervescente de BH, casa de iniciativas como o rock triste da Geração Perdida e o MURRO – Movimento Rock Underground, que reúne nomes promissores como Riviera, Elízia e muitos outros. Difícil mesmo é sair da capital e região metropolitana, com Minas sendo um estado bem grande onde as coisas são muito mais difusas. Ainda assim, dá pra conhecer um monte de coisa legal que a música mineira está lançando constantemente. Listei aqui embaixo apenas a ponta do iceberg, mas tem muito mais sons a serem descobertos.

Sara Não Tem Nome

Natural de Contagem, Sara faz um som meio dream pop, meio folk, meio slowcore, muitas vezes minimalista, mas nem por isso menos caprichado. Curioso que, entre as influências, ela lista da escritora Miranda July ao artista surrealista René Magritte, passando pelo cineasta alemão Werner Herzog. São inspirações múltiplas que resultaram no disco “Ômega III”.

Michele Leal

Tenho que fazer um disclaimer aqui: a Michele Leal é minha cliente, cuido da assessoria de imprensa dela na Build Up Media. Mas, antes de tudo, Michele é dona de uma voz linda que se juntou à sagacidade do Domenico Lancelotti pra criar o novo disco, “Peixe”. Longe de ser mera MPB, o trabalho tem uma onda percussiva muito bonita. Talvez você conheça a Michele (que é natural de Itajubá) da trilha da novela “Sangue Bom” ou do projeto “Mar Azul, que reuniu novas vozes brasileiras pra homenagear o Clube da Esquina.

Laura Jannuzi

Outro disclaimer: a Laura Jannuzi foi minha colega de escola, na oitava série, lá em Leopoldina. Recentemente, nos reencontramos no Facebook e qual não foi minha surpresa ao ver que ela tinha levado a sério o seu gosto pelo violão! Agora a Laura tem uma carreira bem consolidada em Juiz de Fora, e já chama atenção com o disco “Ondes”, com uma produção musical caprichada.

Cabezas Flutuantes

Não é uma banda, é um coletivo belorizontino. E isso significa que as funções de cada músico e até a formação pode variar, de acordo com o show, o propósito de cada álbum. O projeto de Carou Araújo e sua banda flutuante se define como indie, noise, batuque. E é bem isso que o disco “Experimental Macumba”, lançado esse ano, entrega. Ainda com um pezinho nessa onda pop, o trabalho também tem um lado mais ensolarado e tropical.

Mamutte

Mais um multiartista, Mamutte é um cantor e instrumentista que se define como Música Urbana Mineira. Essa é a vibe do EP “Quase-disco”, que ouvi recentemente. A pegada é regional, afro e rock.

 

Esses são só alguns nomes que eu curto bastante. Se você conhecer mais algum, em especial fora da Grande BH, deixa aqui nos comentários!

Continue Reading

3 livros para conhecer Luis Fernando Verissimo

“Verissimas” acabou de chegar às livrarias. Trata-se de uma coleção de citações, frases e sacadas do Luis Fernando Verissimo, também conhecido como o autor que eu leio obsessivamente desde os 13 anos. Fui ao lançamento na Livraria da Travessa, peguei meu carimbo-autógrafo e voltei pra casa lendo os 800 verbetes que o curador Marcelo Dunlop reuniu após ler basicamente tudo que o cara já escreveu (como fã do Verissimo, Dunlop realizou o sonho de todos nós conseguindo o melhor emprego possível: ser pago pra fazer uma das coisas de que mais gosta na vida; outro fãzoca, do Antonio Prata, fez o prefácio do livro, o que me leva à conclusão: tô dando mole nessa coisa de ser fã profissional, deve ser mara).

verissimas

Sem dúvida que, pra muita gente, “Verissimas” vai ser o primeiro contato com a obra do autor, como é o caso das antologias – aquela forma de entrar na água só com a pontinha dos dedos, sentir se rola um clima. Totalmente justificável, eu mesma descobri recentemente uma autora numa dessas coletâneas de bolso: Adélia Prado. Foi amor à primeira leitura <3

Mas quem sempre ouve falar do Verissimo, dá de cara com os livros dele nas livrarias, se lembra de ler alguma crônica dele na escola mas nunca deu bola, ainda pode se apaixonar pelo universo do cara. Não nego, é um lugar muito louco, em que adúlteros convivem com políticos, gênios do jazz, viagens à Europa e a boa e velha classe média. A boa notícia é que Verissimo é um autor versátil, que continua publicando aos 80 anos (viu que saiu um livro infantil também?) e que já fez de tudo nessa vida.  Pensando em quem quer começar a criar intimidade com sua obra, separei aqui três dicas de livros. Considerando que ele tem uma bibliografia de mais de 70 obras publicadas, nem preciso dizer que um quantidade imensa de coisas ficou de fora da lista. Fica a dica pra quem gostar desses três: tem muitos, muitos outros esperando por você 🙂

Verissimo para quem gosta de quadrinhos, tirinhas, graphic novels

As Cobras – Antologia Definitiva (2010)

verissimo-as-cobras

Verissimo não é um desenhista muito bom, e ele sabe disso. Tanto, que seus personagens desenhados mais famosos são duas cobrinhas, possivelmente as formas mais fáceis de ganharem forma no papel. Mas o grande destaque de “As Cobras” não é o trabalho artístico, e sim as tiradas geniais desses dois bichinhos, que ficam filosofando sobre a existência e um falso senso de importância que nós temos diante do universo. É meio deprê pensar a vida nesses termos, mas elas fazem isso com um bom humor e uma sagacidade irresistíveis – ainda mais quando a gente pensa que eram publicadas em plenos anos 70, em meio à ditadura. Em 2010, saiu essa antologia com 200 páginas, mas também dá pra encontrar um monte das tirinhas no Google Imagens.

Verissimo para quem quer crônica

Comédias da vida privada (1994)

comedias-da-vida-privada

Esse é um clássico e o primeiro livro que li do Verissimo na vida. Ele reúne tipos da classe média brasileira, com todas as nossas manias e desculpas para fazer besteira que você pode imaginar. Os capítulos já dão uma pista da temática, dividindo as 101 crônicas em “Pais e filhos”, “Encontros e desencontros”, “Fidelidades e infidelidades”. Aqui, a crônica é a protagonista, assumindo de vez o seu papel de relato do cotidiano, criando personagens que poderiam tanto habitar a tela de Rede Globo (como aconteceu, em forma de minissérie) quanto o seu prédio, o seu trabalho, a sua família. “Comédias da vida privada” é um grandecíssimo clichê nessa lista, mas não daria pra deixar de fora o livro que abriu caminho para tantos outros hoje presentes nas livrarias. Sem este, provavelmente não teríamos “As mentiras que os homens contam” e a coleção da Objetiva que veio depois, praticamente colocando um livro do Verissimo por ano nas prateleiras.

Verissimo pra quem gosta de romance

O Clube dos Anjos (1998)

o-clube-dos-anjos-luis-fernando-verissimo

Os romances não são o feito mais conhecido da carreira do Verissimo, mas que existem, existem. E “O Clube dos Anjos” é provavelmente o melhor exemplo de como o autor muda de estilo ao entrar em uma escrita mais longa, menos voltada para a anedota e mais direcionada a estabelecer um clima, muitas vezes de mistério e estranhamento. Certamente é o caso aqui, na história de um clube de 10 amigos que começam a morrer em seus jantares mensais após a chegada de um novo cozinheiro que prepara pratos divinos. E aí fica o questionamento filosófico: até onde ir quando o que está em jogo é a vida ou… um prato muito saboroso? “O Clube dos Anjos” faz parte da coleção Plenos Pecados (também da Objetiva), que dedicou um livro, escrito por um autor diferente, a cada pecado capital. Nem preciso dizer que o escolhido por Verissimo foi a gula, um tema recorrente na sua obra. Com apenas 130 páginas, esse livro é fácil e rápido de ler, o que não diminui em nada a sua habilidade de prender o leitor desde o início.

O que ficou de fora? Bom, tudo! Tem livro de poesia? Tem sim! E sobre futebol? Também! Viagens? Aham! Duvido que na nossa literatura exista outra figura que produza tanto, tão bem e sobre tanta coisa. Como bem colocou o Marcelo Dunlop no autógrafo do meu “Verissimas”… Viva Verissimo!

Continue Reading

Tudo É Cópia & The Most of Nora Ephron

Ando numa fase muito Nora Ephron. Tudo culpa de “The Most of Nora Ephron”, livro lançado em 2013 pela Knopf com uma antologia de textos da jornalista, roteirista e diretora. A coletânea chegou a ser planejada pela própria Nora, que não chegou a ver o resultado – ela faleceu em 2011, vítima de pneumonia em consequência de uma leucemia que combatia há anos.

Mas ninguém sabia disso. Nora manteve esse segredo dos amigos mais próximos, escolhendo focar no trabalho sempre que pode. Nesse meio tempo, lançou filmes, viu sua primeira peça ser encenada (com Tom Hanks como protagonista – nada mal) e virou blogueira, contribuindo com textos bem-humorados e insights sagazes para o Huffington Post. Esse segredo é o ponto de partida de “Tudo É Cópia”, documentário que assisti logo que terminei de ler o livro. A produção da escritora e diretora nos últimos anos é só a pontinha do iceberg do legado que ela deixou, e é isso que tanto “The Most of Nora Ephron” quanto “Everything is Copy” tentam fazer – encapsular essa mulher incrível em algumas páginas, alguns minutos de filme.

17316511

Não dá, mas há que se dizer: são duas ótimas tentativas. O livro é um bom ponto de partida para entender mulheres, ambição, relacionamentos, mídia e jornalismo, isso só pra citar os temas mais óbvios. Mas é, principalmente, um atestado de versatilidade de Nora Ephron, desde o início de sua carreira como repórter. Dividido em seções como “A ensaísta”, “A autora de perfis”, “A blogueira” e entrecortado por um romance (“Heartburn”), um roteiro completo (“Harry & Sally – Feitos um para o outro”) e uma peça (“Lucky Guy”), essa é uma coleção de reflexões sobre a vida da forma mais cândida e sincera possível. Pense em Sally, à la Meg Ryan, falando verdades a torto e a direito sobre assuntos que vão do fim de um casamento ao surgimento do movimento feminista, passando por receitas narradas com a empolgação de alguém que só poderia ser uma apaixonada por comida até as mazelas do governo Bush e da guerra que ele desencadeou.

O que “The Most of Nora Ephron” revela é uma autora que ousou ser a protagonista de suas próprias histórias. Não porque Sally seja um retrato dela mesma – e talvez seja, em muitos aspectos -, mas porque sua ambição não permitiu que ela fosse relegada a segundo plano. Nora ousou começar uma matéria jornalística na primeira pessoa, certamente desconstruindo o padrão que aprendeu naquela faculdade conservadora e apenas para mulheres que ela frequentou. Ousou colocar tanto de si mesma nos defeitos e franquezas de suas personagens. Se recusou a aceitar numa boa o fim do casamento com Carl Bernstein (aquele mesmo, que com Bob Woodward trouxe à tona um dos casos jornalísticos mais icônicos já vividos pela imprensa, o Watergate). Trocando o nome dos personagens, deu vida à história de “Heartburn”, vendeu milhares de cópias e o direito para as telonas – o que, no fim das contas, fez com que ela fosse interpretada por Meryl fucking Streep.

E é aí que a gente chega no documentário “Tudo é Cópia” (que a HBO vai exibir até o final de novembro). No comando do filme está ninguém menos que Jacob Bernstein, filho de Nora Ephron e Carl Bernstein – um sujeito que teve tanto jornalismo no DNA que acabou não tendo muita escolha na vida. Virou jornalista e colocou no filme o seu olhar analítico pra entender quem foi a mãe – aquela repórter que chegou abalando com vinte e poucos anos em Nova York; que formou um casal poderoso com seu pai até o fim do relacionamento; que trocou de profissão e ainda assim deixou sua marca, especialmente na forma como as mulheres são retratadas no cinema. Tem muita imagem de arquivo, desde os anos 50, mas tem também depoimentos do nível “eu me esforçava pra ser engraçado perto dela, queria impressioná-la” (por ninguém menos que Steven Spielberg) e leituras dramáticas feitas por nomes como Reese Witherspoon, Meg Ryan e Lena Dunham dando voz a alguns textos que integram “The Most of Nora Ephron”.

Por isso, não é preciso ser fã de “Mensagem Pra Você” ou “Sintonia de Amor” para se ver fascinado pela personagem que a própria Nora Ephron foi. Assim mesmo, cheia das suas contradições e defeitos, mas também repleta das tiradas geniais que influenciaram toda uma leva de mulheres contadoras de histórias – a própria Dunham, Amy Schumer, Mindy Kaling, Tina Fey. Antes delas, foi preciso que outras tantas ousassem criar mulheres tridimensionais, escrevessem personagens ricas, e Ephron faz parte do grupo seleto de criadoras que abriram espaço para tantas outras.

Nora Ephron é Sally, é Julie, é Annie, é Kathleen. E nós somos todas elas. Só me resta dizer, mais uma vez: Obrigada, Nora.

Continue Reading

5 motivos para assistir Outlander

Ficou sabendo? Outlander estreou na Netflix. A primeira temporada da série já está disponível e… você nem sabe do que se trata. Pois é. Outlander é um grande fenômeno, para um grupo pequeno de pessoas. Claro que é um grupo pequeno grande o suficiente pra comprar milhões de cópias dos livros que inspiraram a série e ainda gerar audiência para o canal Starz, mas… Bem, você entendeu. O ponto é que Outlander é uma série meio de época, meio de fantasia, o que a coloca na disputa direta com Game of Thrones, esse sim um fenômeno massivo e que ainda conta com o selinho de produção HBO (o que automaticamente o coloca na frente nas categorias de respeito da crítica e orçamento). Portanto, nem tanta gente assim sabe o quanto Outlander é maneiro. Ok, e também um pouco brega. Mas principalmente maneiro.

A história é mais ou menos essa: Inverness, 1945. Claire Randall (Catriona Balfe) era uma enfermeira na Segunda Guerra Mundial e, agora que o conflito acabou, ela reencontra o marido e eles partem para uma segunda lua de mel, na cidade de origem da família dele, na Escócia. Ao buscar evidências de sua árvore genealógica, ele a leva para conhecer Craigh Na Dun, um monumento construído com pedras dispostas em pé, em círculo, até hoje um mistério para muitos historiadores. Ali, eles presenciam um ritual, ao que tudo indica, pagão. Ao retornar a Craigh Na Dun sozinha, Claire toca uma das pedras e é imediatamente transportada para 1743, no meio de um conflito entre escoceses e ingleses. Ela é encontrada por um grupo de nativos e levada para um castelo como hóspede – isto é, até perceber que não pode sair dali sem dar explicações. Afinal, ela é uma inglesa em terras escocesas e pode ser uma espiã para os casacas vermelhas. Claire se vê então presa em um tempo diferente do seu e precisa ganhar a confiança dos que estão à sua volta e esconder seu passado para não ser dada como louca ou, pior ainda, bruxa.

Como catequizei os meus amigos para assistirem Jane The Virgin, fiz o mesmo com Outlander. Agora que tá na Netflix, fica bem mais fácil para apresentar essa série pra todo mundo que eu conheço! Então começo por aqui, elencando alguns motivos para você assistir Outlander:

1. A história se passa na Escócia

Highlands13

Já falei isso por aqui: a Escócia é um paraíso na Terra. Tive a oportunidade de visitar o país no ano passado e você pode ver aqui que não estou exagerando. No mínimo, a cada episódio, tem locações maravilhosas, em especial nas Terras Altas. Mas não é só: o sotaque é diferente de tudo que você já ouviu, a cultura é muito rica e os rapazes usam kilts. Sem entrar em muitos detalhes, mas a história não fica apenas na Escócia, com uma passagem pela França do século XVIII, também cheia de tensão pelo seu momento histórico.

2. A música de abertura (e toda a trilha sonora)

Bear McCreary é o responsável pela trilha sonora de Outlander, cheia de composições climáticas e ao mesmo tempo sutis. A base é de instrumentos de corda, mas utilizando também percussões, coros e sopros para dar o tom de cenas tensas ou delicadas. O grande destaque é para “The Skye Boat Song”, uma composição tradicional do folk escocês. Ela é uma valsa que faz menção à fuga do Príncipe Charles Edward Stuart para a ilha de Skye após a derrota na batalha de Culloden, uma das mais sangrentas na história dos conflitos Escócia x Inglaterra. A letra foi adaptada ao unir a história do príncipe travestido em um barquinho com um poema icônico de Robert Louis Stevenson (autor de “A Ilha do Tesouro” e “O médico e o monstro”), chamado “Sing me a song of a lad that is gone”. O resultado ficou muito bonito!

3. Claire é uma personagem forte

1-x1_claire-randall-nurse

Não vou entrar na questão de papeis femininos em Game of Thrones, porque já deu, né? Mas eu só comecei a ver Outlander por estar cansada da outra série que só sabia subjulgar as mulheres. Outlander também tem nudez? Tem. Tem estupro? Tem também. Mas a questão central aqui é a forma como esses recursos são utilizados na história. Em Outlander, a nudez não é despropositada. Aliás, tem mais cenas do Jamie (Sam Heughan) sem camisa do que tudo. E, mesmo quando acontece algum estupro, ele serve muito mais para avançar a linha da história de alguma personagem feminina do que para fazer crescer um personagem masculino. Ainda não é o ideal, mas dá pra ver na Claire um ótimo começo de heroína de “época” que consegue ser mais inteligente que todo mundo à volta (digamos que ela tem uns 200 anos de conhecimento científico a mais, então tá explicado), corajosa, destemida, determinada e que, vez ou outra, salva a pele de uns homenzarrões que, sem ela, estariam perdidos.

4. A fantasia tem forte contexto histórico e político

Para quem gosta de História, Outlander é um prato cheio – em especial para quem se interessa pela História do Reino Unido, como é o meu caso. Mas, mais do que isso, a série lida com a presença da religião nas questões de estado, com conspirações para tomada do trono e, com a especialidade de curandeira da Claire, sempre tem um pezinho na linha tênue entre o que pode ser considerado medicina ou simplesmente magia negra. Outlander se passa em um momento histórico altamente conturbado e não teme lidar com o conceito do oculto, do incompreendido e do incompreensível.

5. É baseada em uma série de livros

outlanderseriedelivros

Quem não quer esperar um ano inteiro pra rever Claire e Jamie, pode simplesmente se entregar à série de oito livros escritos por Diana Gabaldon desde 1991. São belos calhamaços de 600, 700, 800, 900… 1.000 páginas! Até o momento, só li um dos livros e, pra ser sincera, já aceitei que não dá tempo de ler todos. Minha impressão foi de que os romances são meio novelões, não são muito para o meu gosto, mas é um belo consolo saber que é possível recorrer aos livros quando bater aquela saudade.

Esses são só alguns dos motivos pra vocês começarem logo a ver Outlander, que já terminou sua segunda temporada no ar. A série segue crescendo, melhorando, aprimorando e pensando novas formas de contar uma história tão improvável quanto verídica. Cada vez mais, os destinos de Claire e Jamie se atrelam aos destinos da própria História, e é muito gratificante descobrir o desenrolar disso tudo.

Continue Reading