Desafio Literário: “A confissão da leoa”, de Mia Couto

capa-do-livro-a-confissao-da-leoa-de-mia-couto-1351788841927_719x1080Editora: Companhia das Letras
Páginas: 251
Lançamento: 2012
Nota: 5/5

Esqueça a fome, a pobreza, o analfabetismo – ou, ao menos, deixe de lado boa parte da imagem que você formou ao longo dos anos sobre os países africanos. Em “A confissão da leoa”, Mia Couto pinta um Moçambique mais rico do que se pode imaginar, habitado por sonhos, lendas e um povo que carrega a alma cheia de tristezas, mas segue em frente.

Em Kulumani, quem tem fome são os leões. Uma fêmea vem atacando as mulheres da vila, o que leva um experiente caçador de volta ao local onde abateu um crocodilo, 16 anos antes. Arcanjo Baleiro chega da capital e encontra um pequeno agrupamento de pessoas desconfiadas – tanto do felino quanto dele.

Mas o caçador também tem lá suas feras interiores a domar: o relacionamento com um irmão que perdeu a sanidade após uma tragédia na família; a paixão secreta pela cunhada; e sua própria solidão no mundo. Talvez – o livro sugere – o caçador tenha ido a Kulumani para deter a leoa, mas poderia acabar matando outra coisa.

Parece cruel, mas o romance de Mia Couto é inspirado por fatos reais. O autor, que também é biólogo, participava de uma expedição no norte do país em 2008 quando começaram a ocorrer ataques de leões a mulheres. Usando essa marcante experiência como mote, Couto revela as dores e a grandeza de ser mulher em uma sociedade parada no tempo.

Incorporando a história de uma dessas vítimas, o romancista constrói um rico panorama de sua situação histórica e cultural em um país devastado por guerras contra conquistadores e também contra si mesmo. São mães, filhas, esposas, irmãs e amigas que travam, todos os dias, suas próprias batalhas para sobreviver. Mas o discurso político pontual e a crítica a essa sociedade patriarcalista e opressora serve para desvendar a alma dessas personagens. Couto nutre tamanho respeito pelo sexo feminino que inicia a história com a frase “Deus já foi mulher”.

Quem começa esse relato é Mariamar, irmã de Silência, a última vítima da leoa. O luto logo dá lugar à exposição de uma existência medíocre, mas nem por isso menos bela. Mariamar sofreu ao nascer, ao crescer e ao amar, e por isso não tem medo de morrer. É assim para a maioria das mulheres daquela terra. Sem direitos ou importância, a elas cabe trabalhar e parir – e o que é isso senão um tipo de morte?

Na medida em que os capítulos vão se alternando – primeiro, na narração dela; depois, extraídos do diário dele – o autor expõe todas as frustrações, perdas e desvios no caminho que fizeram de Mariamar e Arcanjo duas pessoas igualmente infelizes e questionadoras da própria existência. Em um mundo em que árvores dão vida a pessoas e o mito e a realidade se confundem, a mulher e o caçador precisam, cada um à sua maneira, encontrar o caminho para a liberdade.

“A confissão da leoa” é triste. Não porque fala de morte, mas porque mostra como pode ser difícil viver. Apenas a poesia em prosa de Mia Couto conseguiria transformar tantas lágrimas em beleza e em uma história encantadora.

Leia também:
“As aventuras de Pi”, de Yann Martel
“Barba ensopada de sangue”, de Daniel Galera
“O lado bom da vida”, de Matthew Quick
“Meu pescoço é um horror e outros papos de mulher”, de Nora Ephron
“As vantagens de ser invisível”, de Stephen Chbosky
“O rei das fraudes”, de John Grisham
“Sobrevivente”, de Chuck Palahniuk
“Liberdade”, de Jonathan Franzen
“A culpa é das estrelas”, de John Green
Desafio Literário 2013

Você também pode gostar de:

12 Comentários

  1. Nathália,

    eu sou apaixonada pelo Mia Couto (meu tcc foi sobre ele, e sobre um autor marfinense chamado Ahmadou Kourouma, que também é muito bom). Quero muito ler esse livro, estava esperando a edição dele chegar ao Brasil.. mas agora vou ter que esperar um pouco para adquirir novos livros.

    Não sei se tu conhece mais da obra dele mas eu recomendo:

    Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra (o melhor)
    O ultimo voo do flamingo
    Terra sonâmbula

    Os três são muuito bons!! Vale a pena!!

    Se você se interessar pelo tema, ou pela literatura africana meu trabalho está disponível no meu blog 🙂

    http://www.gavetaliteraria.com.br

    Beijinho flor!!

    1. Oi, Taiane! Obrigada por ler a resenha! Esse foi meu primeiro contato com o Mia Couto, e foi amor à primeira vista! Mesmo sem ler nada dele, sabia que ia gostar e comprei também O fio das missangas e Antes de nascer o mundo. Quero muito ler esses que você indicou também. E sim, a capa da Cia. das Letras ficou lindona! 🙂 Obrigada pela visita e pelo comentário. Beijo!

    1. Larissa, por incrível que pareça, eu nunca tinha lido uma resenha do Mia Couto! Mas me deparava constantemente com alguns escritos dele aqui e ali, e por aqueles trechinhos eu sabia que ia me apaixonar. Já me disseram que comecei pelo livro errado (até tenho o certo, mas ele não se encaixava no tema do DL! rs), mas acho que vou acabar lendo todos dele… Recomendadíssimo! Se ler, depois me conte o que achou. Beijo!

  2. Menina, que resenha maravilhosa. Eu nunca li Mia Couto – e sim, morro de vergonha de assumir isso – mas essa foi a melhor resenha de livro dele que já lia té hoje. Gosto de livros que exploram o universo feminino – ainda que de maneira sutil, como esse parece fazer. E histórias tristes são muito bem-vindas, desde que sejam belas.
    Abraços.

    1. Nina, belo foi esse comentário! Hehe Obrigada por ler a resenha e deixar esse feedback super positivo, fico muito feliz! Mas olha, não se sinta mal por nunca ter lido Mia Couto. Também li tardiamente, mas acredito que tem hora pra tudo na vida – só me rendi quando citações do Mia apareciam na minha vida e eu imediatamente me apaixonava por elas. Foi uma experiência libertadora confirmar o quanto ele falaria comigo e por isso senti que tinha de passar adiante! Rs Espero que você esteja ainda mais disposta a conhecer esse mundo encantador que é o de Mia Couto. Depois me conta se gosta! Beijo!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *