Dois discos sobre ser mulher, raça e identidade

Uma das coisas mais legais da música é que ela costuma ser um bom retrato de seu tempo. Ou, melhor ainda, ela transforma o momento histórico de que faz parte, contribui para debates sociais e culturais, deixa a sua marca em uma geração inteira. Talvez não dê pra sentir agora, mas é bem possível que num futuro não muito distante, a gente olhe pra 2014, 2015, 2016 como anos que, apesar de tudo, mudaram o discurso. Que colocaram no centro do debate sobre o mundo que queremos questões como raça, gênero, sexualidade, diferenças socioeconômicas, mais diversidade e menos xenofobia e violência policial.

Se é bem verdade que parece que o discurso mais conservador está ganhando (vide Trump presidente – nem vou comentar o absurdo que é digitar isso e saber que é verdade), por outro lado está bem claro que essas pautas não vão a lugar algum. Agora as mulheres estão empoderadas e pessoas que sofrem com preconceito racial todos os dias estão munidas de câmeras que mostram cada dura, cada tiro a queima-roupa.

Os tempos são outros, e a música também. Alguns fenômenos como “Lemonade”, de Beyoncé, e “To pimp a butterfly”, de Kendrick Lamar, seriam completamente diferentes 5, 10 anos atrás. E o mesmo vale para dois discos que saíram nas últimas semanas:

Alicia Keys – HERE

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Alicia declarou na melhor newsletter de todos os tempos que ia parar de usar maquiagem. Ainda há quem duvide dessa “cara lavada” completa, mas lá está ela na capa do novo disco, cheia de sardas, com cabelo natural e totalmente dona de si. Essa reconstrução visual foi muito importante para esse novo momento na carreira da cantora, que passou os últimos anos tentando se encaixar no padrão “mulherão popstar” – e, se vocês bem se lembram da época de “Fallin'”, nunca foi a onda dela.

Mas Alicia cresceu, amadureceu, mudou seu som e compôs um disco que é um retrato da vida de uma mulher negra na América – e se você acha que isso se resume a usar ou não maquiagem, está enganado. Tem uma música sobre isso? Tem sim, “Girl can’t be herself”. Também tem sobre ser mãe (“Blended Family”) e sobre se sentir diminuída pela cor da sua pele (“Glow”, “More Than We Know”). Mas Alicia ousou sair das limitações que os termos “mulher” e “negra” lhe impõem e fala sobre espiritualidade e fé (“Hallelujah”); discursos de ódio e um mundo dividido (“Holy War”); homofobia (“Where do we begin now”).

Talvez o disco seja, também, uma ode a Nova York, como a própria Alicia já definiu, exaltando a sua cultura de rua, seus bairros, sua diversidade. Mas muito mais do que isso, “HERE” é uma declaração de que mulheres negras não cabem em um estereótipo e não se resumem pelo preconceito, pelos salários menores, pela falta de oportunidade, embora tudo isso faça parte de suas vidas. A melhor forma de fazer isso é expandir o espectro musical do álbum, indo de uma balada ao violão para um hip hop, mesclando com momentos de spoken word completamente naturais, em que Alicia discute no estúdio o conteúdo de algumas das letras.

Talvez Alicia Keys esteja em uma fase de reconstrução, mas “HERE” me parece um ótimo primeiro passo nessa direção.

Solange – A seat at the table

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“A seat at the table” é exatamente aquilo que seu título entrega: um chamado, um grito de quem, de fato, não tem lugar à mesa (aquela onde as decisões são tomadas, onde há dinheiro e poder). Solange construiu um poderoso trabalho, esse sim voltado para a questão de raça e a situação da mulher negra, mas também de autodescoberta. Em “Rise”, que abre o disco, ela fala sobre a importância de não perder a sua essência, de ser quem se é em diferentes momentos da vida. “Weary” também tem esse caráter pessoal, um desabafo de quem se cansou do mundo como está e de não perder o propósito de fazer melhor, fazer diferente.

Alguns pontos altos do disco podem ter essa mesma verve autobiográfica – ou, por outro lado, podem estar falando de algo ainda mais profundo. “Cranes in the sky” tem essa duplicidade, retratando uma personagem que queria superar um momento difícil comprando coisas, bebendo demais. “Estourei o cartão, achei que um vestido fosse melhorar as coisas, tentei trabalhar, tentei dormir, mas não adiantou nada” – é mais ou menos o que ela canta. Já em “Don’t touch my hair”, essa negritude fica mais explícita. “Não toque no meu cabelo” vira “Não toque na minha coroa”, porque é isso que o black power é – uma expressão de poder, de autoestima, de autoconhecimento e orgulho de suas origens. Esse mesmo tópico de expressão pessoal aparece em “Don’t you wait”, em que Solange aborda quem a critica por mudar sua sonoridade sem levar em consideração “a mão que a alimenta”, ou seja, quem comprava seus discos quando ela tinha uma identidade mais indie. Na faixa, ela diz pra quem quiser ouvir: você não pode se vangloriar de ser “a mão que me alimenta” e ao mesmo tempo não me permitir a liberdade de ser quem eu quiser ser.

Em “Mad”, ela ataca outro estereótipo: o da mulher negra raivosa. Embora muitas mulheres, de todas as etnias, possam se identificar com essa sensação – de ser tratada como histérica quando você, como qualquer ser humano, também fica puta da vida de vez em quando -, no caso das mulheres negras existe todo um fator cultural. Em algum momento na história, foi estabelecido que todas elas são assim, o que banaliza o discurso de uma pessoa que tem muito a dizer.

No espírito de abordar a falta de representatividade negra na “mesa” do título, vem “Where do we go”, que toca na questão da gentrificação das comunidades predominantemente negras que, por ganharem o interesse de moradores brancos e mais ricos, levam essas famílias a largarem seus lares completamente modificados por um novo panorama socioeconômico. Já em “Scales”, ela avisa: cuidado ao deixar que outros determinem o seu valor. Em “F.U.B.U.”, uma proclamação: tomem posse do que é seu, do que é feito pra vocês. Aqui, Solange conclama a comunidade negra para assumir sua voz e cantar em seus próprios termos. Pra completar, tudo isso é permeado por interlúdios que complementam os discursos das letras.

Deu pra notar que é um disco enorme? No total, são 21 faixas. Quando se chega ao fim, é possível notar que Solange precisava fazer esse desabafo e transformar essa problemática em empoderamento. E talvez ela tenha conseguido, ao lançar um dos melhores discos de 2016.

Ouçam Solange, ouçam Alicia, ouçam mulheres, ouçam mulheres negras. Elas são incríveis e têm muito a dizer. Somos sortudos de estarmos aqui pra ouvir.

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5 sons de Minas Gerais

Quando você pensa em Minas Gerais, o que vem em mente? Um cafezinho coado na hora, uma broa de fubá, um trem passando à distância, talvez? Esse é um cenário tipicamente mineiro e nem um pouco falso – Minas tem muito disso mesmo. Acho que a gente associa a conforto, receptividade, simplicidade. E, claro, à música que ficou tipicamente conhecida como a dos mineiros – Clube da Esquina, Pato Fu, Flavio Venturini, João Bosco, Vander Lee. São excelentes exemplos do que o estado tem  a oferecer, mas não dá pra dizer que são os únicos – afinal, estamos falando da origem de Só Pra Contrariar, Emmerson Nogueira e Clara Nunes, só pra citar alguns sucessos improváveis de surgirem em Uberlândia, Juiz de Fora e Paraopeba, se a gente só olhar pro estereótipo.

E dá pra fugir dessas obviedades? Dá sim. A começar pela cena efervescente de BH, casa de iniciativas como o rock triste da Geração Perdida e o MURRO – Movimento Rock Underground, que reúne nomes promissores como Riviera, Elízia e muitos outros. Difícil mesmo é sair da capital e região metropolitana, com Minas sendo um estado bem grande onde as coisas são muito mais difusas. Ainda assim, dá pra conhecer um monte de coisa legal que a música mineira está lançando constantemente. Listei aqui embaixo apenas a ponta do iceberg, mas tem muito mais sons a serem descobertos.

Sara Não Tem Nome

Natural de Contagem, Sara faz um som meio dream pop, meio folk, meio slowcore, muitas vezes minimalista, mas nem por isso menos caprichado. Curioso que, entre as influências, ela lista da escritora Miranda July ao artista surrealista René Magritte, passando pelo cineasta alemão Werner Herzog. São inspirações múltiplas que resultaram no disco “Ômega III”.

Michele Leal

Tenho que fazer um disclaimer aqui: a Michele Leal é minha cliente, cuido da assessoria de imprensa dela na Build Up Media. Mas, antes de tudo, Michele é dona de uma voz linda que se juntou à sagacidade do Domenico Lancelotti pra criar o novo disco, “Peixe”. Longe de ser mera MPB, o trabalho tem uma onda percussiva muito bonita. Talvez você conheça a Michele (que é natural de Itajubá) da trilha da novela “Sangue Bom” ou do projeto “Mar Azul, que reuniu novas vozes brasileiras pra homenagear o Clube da Esquina.

Laura Jannuzi

Outro disclaimer: a Laura Jannuzi foi minha colega de escola, na oitava série, lá em Leopoldina. Recentemente, nos reencontramos no Facebook e qual não foi minha surpresa ao ver que ela tinha levado a sério o seu gosto pelo violão! Agora a Laura tem uma carreira bem consolidada em Juiz de Fora, e já chama atenção com o disco “Ondes”, com uma produção musical caprichada.

Cabezas Flutuantes

Não é uma banda, é um coletivo belorizontino. E isso significa que as funções de cada músico e até a formação pode variar, de acordo com o show, o propósito de cada álbum. O projeto de Carou Araújo e sua banda flutuante se define como indie, noise, batuque. E é bem isso que o disco “Experimental Macumba”, lançado esse ano, entrega. Ainda com um pezinho nessa onda pop, o trabalho também tem um lado mais ensolarado e tropical.

Mamutte

Mais um multiartista, Mamutte é um cantor e instrumentista que se define como Música Urbana Mineira. Essa é a vibe do EP “Quase-disco”, que ouvi recentemente. A pegada é regional, afro e rock.

 

Esses são só alguns nomes que eu curto bastante. Se você conhecer mais algum, em especial fora da Grande BH, deixa aqui nos comentários!

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2 vídeos para refletir sobre preconceito musical

Você deve ter notado que eu não apareço por aqui faz um tempo. É que tenho trabalhado demais. Sou assessora de imprensa de músicos independentes e minha função é basicamente colocar no mundo singles, clipes, discos, e levar as pessoas até eles. Na última semana, a empresa passou por uma avalanche de reações positivas à nova música da MC Carol, “Delação Premiada”, que saiu com exclusividade na Folha de S. Paulo.

Foi bonito de ver tanta gente reagindo positivamente a uma música que ousou ser política e a colocar em pauta assuntos importantíssimos, como violência policial e o profiling de pobres e favelados pela polícia. Mas claro que essa não foi a opinião de todo mundo – e nem poderia ser, porque as pessoas têm gostos diferentes e não são obrigadas a gostar das mesmas coisas.  O que mais me chamou a atenção foram comentários de leitores que criticavam a postura dos veículos que publicavam a música, acusando-os de se “rebaixarem” a certo nível. Claro que parte disso se deve ao discurso social da música; mas fica claro, nas entrelinhas de algumas dessas críticas, que a grande questão é que a linguagem escolhida para passar essa mensagem foi o funk.

Ou, bem, um trap. Se “Delação Premiada” viesse com um carimbo de gênero musical não-marginalizado e modernoso, dá pra imaginar que talvez a reação fosse ainda melhor do que a que sentimos por aqui. Foi por isso que encontrar os dois vídeos que recomendo abaixo teve um timing excelente nessas minhas reflexões.

Neste primeiro, um professor de história aborda alguns gêneros musicais que já foram marginalizados – entre eles o blues, o rock e o jazz – e que hoje são considerados mais nobres e até mesmo elitizados. Entender as causas desse preconceito nos ajuda a entender melhor outros julgamentos que fazemos no dia-a-dia e que, no fim das contas, preconceito musical muitas vezes se traduz em preconceito racial e social. É importante reconhecer que a maior parte dos julgamentos culturais que fazemos tem uma origem muito mais profunda do que parece.

Já neste outro, conheci por acaso uma série de vídeos que coloca idosos para reagir à cultura pop. Neste episódio, muitos deles ouvem Kendrick Lamar pela primeira vez com “King Kunta” e “Swimming Pools”, culminando na cereja do bolo: a apresentação do Kendrick no Grammy deste ano. A conversa começou pelo bom e velho “isso de rap não é pra mim” e acaba com reflexões importantes sobre o papel do rapper hoje e o valor do artista como alguém que propõe reflexões importantes.

Já notou que hoje em dia, tem muito mais gente ouvindo hip hop? Que você tem rappers como headliners de festivais de rock, e que de vez em quando ver um artista do gênero e surpreende todo mundo (o último foi algumas semanas atrás: Chance The Rapper)? Custou, mas o hip hop parece ter finalmente cruzado a linha de chegada, da favela para o asfalto, colocando nomes como Criolo, Emicida e Karol Conka entre alguns dos principais da cena musical brasileira hoje.

O que fez a percepção das pessoas mudar nesse meio tempo? Sinceramente, não sei.  Mas essa mudança acontece de tempos em tempos, entra geração, sai geração. O que só prova o quanto esse tipo de preconceito é improdutivo, para começo de conversa. No fim das contas, sair da zona de conforto nos faz conhecer novas perspectivas de vida – e ainda há boas chances de descobrirmos músicas incríveis, como recompensa 🙂

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Cindy Lauper: Girls Just Want Equal Funds

Nos anos 80, Cindy Lauper presenteou as adolescentes do mundo com um hino à sua rebeldia. “Girls Just Wanna Have Fun” é até hoje uma das canções pop mais marcantes quando o assunto são meninas que se recusam a seguir as regras.

Nada mais rebelde que essa senhora de sessenta e poucos anos subvertendo a própria música pra falar sobre um assunto bem menos divertido: a diferença de salários entre homens e mulheres. Já falei bastante aqui sobre esse assunto, mas Cindy resume muito bem essa questão com a ajuda do apresentador do Late Late Show, James Corden. É fofo, é engraçadinho, é divertido, mas não deixa de dar o recado: paguem direito as mina.

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