3 livros para começar a ler Mia Couto

Sou fãzoca do Mia Couto desde que li o primeiro livro que comprei, “A confissão da leoa” (resenha aqui!). Isso foi em 2013, e desde então leio ao menos 3 ou 4 livros do escritor moçambicano por ano. A minha sorte é que a Companhia das Letras está publicando toda a sua obra no Brasil, com lançamentos periódicos! =D

Também é assim com a maioria das pessoas que conhecem o trabalho do Mia: elas querem falar pra todo mundo desse cara que escreve umas bonitezas. Eu mesma decidi comprar o livro após ver várias amigas compartilhando trechos de obras suas. Se você também tem essa curiosidade, vim aqui indicar três livros para conhecer a obra desse autor tão único!

Isso não quer dizer que o estilo de Mia Couto não sofra influências diversas – dá até pra associar aos brasileiros Adélia Prado e Guimarães Rosa. Mas este biólogo que se tornou escritor buscou na cultura moçambicana a originalidade da sua escrita, retratando para o mundo as dores do seu povo, mas sem deixar de lado toda a mística da língua, das religiões e dos costumes do país africano. É realmente de se apaixonar!

Uma dúvida comum a quem nunca leu literatura lusófona: é difícil? Não! Muda um pouco o estilo, a grafia de algumas palavras, mas nada que torne o texto complicado. Aliás, os termos mais diferentes ou de dialetos costumam ganhar um glossário nas edições brasileiras, sempre ao fim dos livros.

Isso significa que você pode se aventurar pelo mundo de Mia Couto sem medo! Três dicas para começar:

O fio das missangas (2004)

Este é um livro de contos da maior sensibilidade. São 29 histórias curtas, de cerca de 4 ou 5 páginas, abordando família, amores, luto, infância e vários outros conceitos que todos nós compreendemos. O mais interessante de perceber quando se lê literatura africana é que as histórias não são estereotipadas como a nossa visão do continente, e que por mais diferentes que sejam nossas experiências, temos também muito em comum. Mia Couto é brilhante em apelar pra essa nossa humanidade, cada vez mais adormecida mas que se desperta a cada novo conto. O meu livro é todo marcado com frases lindamente construídas, tanto que usei uma delas na epígrafe do meu trabalho de conclusão de curso na faculdade <3

Terra Sonâmbula (1992)

Este é o romance mais elogiado de Mia Couto, embora tenha sido publicado há mais de 20 anos (e apenas 9 após seu primeiro livro). Ganhou o Prêmio Nacional de Ficção da Associação dos Escritores Moçambicanos em 1995, além de ter sido escolhido como um dos doze livros africanos do século XX na Feira Internacional do Zimbábue. O livro entrega o interesse do autor pela história de seu país, resgatando momentos chave de Moçambique, em especial de sua guerra civil. A trama de Terra Sonâmbula permeia este momento, quando um menino e um velho utilizam um ônibus carbonizado como abrigo em sua jornada por um país devastado pelo conflito interno que se seguiu à guerra contra os colonos portugueses. Em um dos corpos que jazem à beira da estrada, eles encontram o diário do morto, que passa a intercalar capítulos entre o passado de seu autor e o presente dos protagonistas. Isso mantém a narrativa em constante movimento e apresenta olhares diferentes sobre a mesma tragédia. Terra Sonâmbula faz jus à fama que tem!

Antes de nascer o mundo (2009)

Já escrevi aqui sobre este livro que tanto me impactou (tanto que também ficou todo marcado!). É de uma beleza tão singela e uma tristeza tão pungente! Mia Couto se utiliza de uma grande alegoria, de uma metáfora para construir o mundo de Jesusalém, uma terra esquecida por Deus após o fim do mundo. É lá que habitam Mwanito, seu pai e irmão, resquícios do que restou da humanidade. Até que surge Marta, uma portuguesa em busca do marido perdido por aquelas bandas durante a guerra, e o menino “afinador de silêncios” tem seu primeiro contato com o mundo externo, que ele sequer sabia que existia. Mesmo com poucas palavras, Mwanito é um dos personagens mais ricos de Mia Couto pela inocência com que observa tudo ao seu redor e descobre mais sobre suas origens e o que realmente aconteceu com o mundo. É sem dúvida um dos melhores livros que li nos últimos anos!

Espero que goste das dicas! Já conhece o trabalho do Mia Couto? Então deixe suas próprias dicas nos comentários abaixo 😉

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3 livros para conhecer Luis Fernando Verissimo

“Verissimas” acabou de chegar às livrarias. Trata-se de uma coleção de citações, frases e sacadas do Luis Fernando Verissimo, também conhecido como o autor que eu leio obsessivamente desde os 13 anos. Fui ao lançamento na Livraria da Travessa, peguei meu carimbo-autógrafo e voltei pra casa lendo os 800 verbetes que o curador Marcelo Dunlop reuniu após ler basicamente tudo que o cara já escreveu (como fã do Verissimo, Dunlop realizou o sonho de todos nós conseguindo o melhor emprego possível: ser pago pra fazer uma das coisas de que mais gosta na vida; outro fãzoca, do Antonio Prata, fez o prefácio do livro, o que me leva à conclusão: tô dando mole nessa coisa de ser fã profissional, deve ser mara).

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Sem dúvida que, pra muita gente, “Verissimas” vai ser o primeiro contato com a obra do autor, como é o caso das antologias – aquela forma de entrar na água só com a pontinha dos dedos, sentir se rola um clima. Totalmente justificável, eu mesma descobri recentemente uma autora numa dessas coletâneas de bolso: Adélia Prado. Foi amor à primeira leitura <3

Mas quem sempre ouve falar do Verissimo, dá de cara com os livros dele nas livrarias, se lembra de ler alguma crônica dele na escola mas nunca deu bola, ainda pode se apaixonar pelo universo do cara. Não nego, é um lugar muito louco, em que adúlteros convivem com políticos, gênios do jazz, viagens à Europa e a boa e velha classe média. A boa notícia é que Verissimo é um autor versátil, que continua publicando aos 80 anos (viu que saiu um livro infantil também?) e que já fez de tudo nessa vida.  Pensando em quem quer começar a criar intimidade com sua obra, separei aqui três dicas de livros. Considerando que ele tem uma bibliografia de mais de 70 obras publicadas, nem preciso dizer que um quantidade imensa de coisas ficou de fora da lista. Fica a dica pra quem gostar desses três: tem muitos, muitos outros esperando por você 🙂

Verissimo para quem gosta de quadrinhos, tirinhas, graphic novels

As Cobras – Antologia Definitiva (2010)

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Verissimo não é um desenhista muito bom, e ele sabe disso. Tanto, que seus personagens desenhados mais famosos são duas cobrinhas, possivelmente as formas mais fáceis de ganharem forma no papel. Mas o grande destaque de “As Cobras” não é o trabalho artístico, e sim as tiradas geniais desses dois bichinhos, que ficam filosofando sobre a existência e um falso senso de importância que nós temos diante do universo. É meio deprê pensar a vida nesses termos, mas elas fazem isso com um bom humor e uma sagacidade irresistíveis – ainda mais quando a gente pensa que eram publicadas em plenos anos 70, em meio à ditadura. Em 2010, saiu essa antologia com 200 páginas, mas também dá pra encontrar um monte das tirinhas no Google Imagens.

Verissimo para quem quer crônica

Comédias da vida privada (1994)

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Esse é um clássico e o primeiro livro que li do Verissimo na vida. Ele reúne tipos da classe média brasileira, com todas as nossas manias e desculpas para fazer besteira que você pode imaginar. Os capítulos já dão uma pista da temática, dividindo as 101 crônicas em “Pais e filhos”, “Encontros e desencontros”, “Fidelidades e infidelidades”. Aqui, a crônica é a protagonista, assumindo de vez o seu papel de relato do cotidiano, criando personagens que poderiam tanto habitar a tela de Rede Globo (como aconteceu, em forma de minissérie) quanto o seu prédio, o seu trabalho, a sua família. “Comédias da vida privada” é um grandecíssimo clichê nessa lista, mas não daria pra deixar de fora o livro que abriu caminho para tantos outros hoje presentes nas livrarias. Sem este, provavelmente não teríamos “As mentiras que os homens contam” e a coleção da Objetiva que veio depois, praticamente colocando um livro do Verissimo por ano nas prateleiras.

Verissimo pra quem gosta de romance

O Clube dos Anjos (1998)

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Os romances não são o feito mais conhecido da carreira do Verissimo, mas que existem, existem. E “O Clube dos Anjos” é provavelmente o melhor exemplo de como o autor muda de estilo ao entrar em uma escrita mais longa, menos voltada para a anedota e mais direcionada a estabelecer um clima, muitas vezes de mistério e estranhamento. Certamente é o caso aqui, na história de um clube de 10 amigos que começam a morrer em seus jantares mensais após a chegada de um novo cozinheiro que prepara pratos divinos. E aí fica o questionamento filosófico: até onde ir quando o que está em jogo é a vida ou… um prato muito saboroso? “O Clube dos Anjos” faz parte da coleção Plenos Pecados (também da Objetiva), que dedicou um livro, escrito por um autor diferente, a cada pecado capital. Nem preciso dizer que o escolhido por Verissimo foi a gula, um tema recorrente na sua obra. Com apenas 130 páginas, esse livro é fácil e rápido de ler, o que não diminui em nada a sua habilidade de prender o leitor desde o início.

O que ficou de fora? Bom, tudo! Tem livro de poesia? Tem sim! E sobre futebol? Também! Viagens? Aham! Duvido que na nossa literatura exista outra figura que produza tanto, tão bem e sobre tanta coisa. Como bem colocou o Marcelo Dunlop no autógrafo do meu “Verissimas”… Viva Verissimo!

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Tudo É Cópia & The Most of Nora Ephron

Ando numa fase muito Nora Ephron. Tudo culpa de “The Most of Nora Ephron”, livro lançado em 2013 pela Knopf com uma antologia de textos da jornalista, roteirista e diretora. A coletânea chegou a ser planejada pela própria Nora, que não chegou a ver o resultado – ela faleceu em 2011, vítima de pneumonia em consequência de uma leucemia que combatia há anos.

Mas ninguém sabia disso. Nora manteve esse segredo dos amigos mais próximos, escolhendo focar no trabalho sempre que pode. Nesse meio tempo, lançou filmes, viu sua primeira peça ser encenada (com Tom Hanks como protagonista – nada mal) e virou blogueira, contribuindo com textos bem-humorados e insights sagazes para o Huffington Post. Esse segredo é o ponto de partida de “Tudo É Cópia”, documentário que assisti logo que terminei de ler o livro. A produção da escritora e diretora nos últimos anos é só a pontinha do iceberg do legado que ela deixou, e é isso que tanto “The Most of Nora Ephron” quanto “Everything is Copy” tentam fazer – encapsular essa mulher incrível em algumas páginas, alguns minutos de filme.

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Não dá, mas há que se dizer: são duas ótimas tentativas. O livro é um bom ponto de partida para entender mulheres, ambição, relacionamentos, mídia e jornalismo, isso só pra citar os temas mais óbvios. Mas é, principalmente, um atestado de versatilidade de Nora Ephron, desde o início de sua carreira como repórter. Dividido em seções como “A ensaísta”, “A autora de perfis”, “A blogueira” e entrecortado por um romance (“Heartburn”), um roteiro completo (“Harry & Sally – Feitos um para o outro”) e uma peça (“Lucky Guy”), essa é uma coleção de reflexões sobre a vida da forma mais cândida e sincera possível. Pense em Sally, à la Meg Ryan, falando verdades a torto e a direito sobre assuntos que vão do fim de um casamento ao surgimento do movimento feminista, passando por receitas narradas com a empolgação de alguém que só poderia ser uma apaixonada por comida até as mazelas do governo Bush e da guerra que ele desencadeou.

O que “The Most of Nora Ephron” revela é uma autora que ousou ser a protagonista de suas próprias histórias. Não porque Sally seja um retrato dela mesma – e talvez seja, em muitos aspectos -, mas porque sua ambição não permitiu que ela fosse relegada a segundo plano. Nora ousou começar uma matéria jornalística na primeira pessoa, certamente desconstruindo o padrão que aprendeu naquela faculdade conservadora e apenas para mulheres que ela frequentou. Ousou colocar tanto de si mesma nos defeitos e franquezas de suas personagens. Se recusou a aceitar numa boa o fim do casamento com Carl Bernstein (aquele mesmo, que com Bob Woodward trouxe à tona um dos casos jornalísticos mais icônicos já vividos pela imprensa, o Watergate). Trocando o nome dos personagens, deu vida à história de “Heartburn”, vendeu milhares de cópias e o direito para as telonas – o que, no fim das contas, fez com que ela fosse interpretada por Meryl fucking Streep.

E é aí que a gente chega no documentário “Tudo é Cópia” (que a HBO vai exibir até o final de novembro). No comando do filme está ninguém menos que Jacob Bernstein, filho de Nora Ephron e Carl Bernstein – um sujeito que teve tanto jornalismo no DNA que acabou não tendo muita escolha na vida. Virou jornalista e colocou no filme o seu olhar analítico pra entender quem foi a mãe – aquela repórter que chegou abalando com vinte e poucos anos em Nova York; que formou um casal poderoso com seu pai até o fim do relacionamento; que trocou de profissão e ainda assim deixou sua marca, especialmente na forma como as mulheres são retratadas no cinema. Tem muita imagem de arquivo, desde os anos 50, mas tem também depoimentos do nível “eu me esforçava pra ser engraçado perto dela, queria impressioná-la” (por ninguém menos que Steven Spielberg) e leituras dramáticas feitas por nomes como Reese Witherspoon, Meg Ryan e Lena Dunham dando voz a alguns textos que integram “The Most of Nora Ephron”.

Por isso, não é preciso ser fã de “Mensagem Pra Você” ou “Sintonia de Amor” para se ver fascinado pela personagem que a própria Nora Ephron foi. Assim mesmo, cheia das suas contradições e defeitos, mas também repleta das tiradas geniais que influenciaram toda uma leva de mulheres contadoras de histórias – a própria Dunham, Amy Schumer, Mindy Kaling, Tina Fey. Antes delas, foi preciso que outras tantas ousassem criar mulheres tridimensionais, escrevessem personagens ricas, e Ephron faz parte do grupo seleto de criadoras que abriram espaço para tantas outras.

Nora Ephron é Sally, é Julie, é Annie, é Kathleen. E nós somos todas elas. Só me resta dizer, mais uma vez: Obrigada, Nora.

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A diferença de salários entre homens e mulheres

John Green é um cara que adora juntar um dado aqui e ali pra embasar uma discussão no YouTube. O VlogBrothers é um projeto que ele tem com o irmão, Hank, que mora em outra cidade, e de vez em quando eles levantam uma questão bem cabeluda de compreender. Uma delas foi tema de um dos vídeos recentes do canal: a diferença de salários entre homens e mulheres.

Todo mundo sabe que essa diferença existe. Vira e mexe, notícias e pesquisas comprovam que mulheres recebem menos que homens, embora tenham a mesma qualificação e trabalhem na mesma função, com a mesma carga horária. O que a gente não para pra pensar é que outros fatores afetam esse resultado, além do puro preconceito de gênero (mulheres não são tão inteligentes/analíticas/se emocionam demais/têm que cuidar dos filhos). Alguns deles são a cultura de não direcionar as meninas para campos de exatas e biológicas, onde elas tendem a ganhar mais (mesmo que menos que os homens que fazem o mesmo trabalho) e as horas de trabalho não-remunerado que o sexo feminino cumpre muito além do masculino – ou seja, cuidar da casa e dos filhos.

Como o próprio John Green explica, essa é uma questão bastante complicada e cujos fatores variam bastante, de lugar pra lugar, de sociedade pra sociedade. Mas o que fica claro é que é preciso discutir essas questões e diminuir cada vez mais essa diferença considerável que coloca uns à frente de outros com base apenas em gênero, raça, orientação sexual ou qualquer outra característica que não tem nada a ver com competência profissional.

Se você compreende bem inglês, vale assistir para entender o quanto você pode estar em vantagem ou desvantagem

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3 livros para começar a ler Chuck Palahniuk

Tem muita gente boa escrevendo ótimas histórias por aí, a torto e a direito. É só olhar a lista de lançamentos das editoras pra ficar em dúvida do que comprar, de qual história merece seu suado dinheirinho (e tempo, essa mercadoria cada vez mais em falta).

Porque tem tanto autor talentoso por aí, é difícil dizer quais representam melhor sua geração ou seu gênero – e isso é ótimo. Mostra que temos um mercado criativo bastante consistente, em que não apenas um nome se destaca, mas vários. Isso significa uma infinidade de histórias incríveis sendo contadas no mundo todo, o tempo todo.

Mas se eu tivesse que escolher um nome apenas para representar a melhor literatura americana das últimas décadas, esse cara seria Chuck Palahniuk. E o sucesso comercial nem faz parte dessa equação – estou falando de uma lista de obras publicadas em uma produtividade considerável, sem abrir mão de substância, de densidade. Desde que lançou Clube da Luta, em 1996, Chuck mostrou algumas vezes o quanto é merecedor do hype que veio como consequência do filme de David Fincher.

Mas Chuck transita muito bem entre o mainstream e o nicho mais cult, atendendo a quem gosta de algo mais pop ou então algo mais ~cabeça~. Apesar de já ser bem conhecido, ele não é nenhum George R. R. Martin no quesito vendas. Por isso, vim aqui recomendar alguns de seus livros pra quem ainda não conhece, mas já ouviu falar desse autor de nome esquisito e tem vontade de experimentar:

Clube da Luta

Chuck Palahniuk Clube da Luta

Clube da Luta não é apenas um ótimo livro, como também um grande roteiro adaptado. Ou seja: se você gostou do filme, tem boas chances de gostar do livro, já que ele conseguiu levar para a tela boa parte do caos que Chuck colocou no texto. A construção dos personagens é igualmente confusão e tão genial quanto no longa do Fincher. Uma das poucas coisas realmente diferentes é o final (que eu não vou contar, fiquem tranquilos!), e até hoje não sei qual prefiro! Se você já viu o filme, ainda assim tem a possibilidade de se surpreender.

Esse foi seu primeiro livro publicado, mas ele já traz algumas das características que viriam a se tornar parte indissociável da escrita do Chuck. Em especial, a habilidade que o autor tem de jogar na nossa cara as falhas que cometemos enquanto sociedade – toda a nossa hipocrisia e nossos preconceitos. Por conta disso e outros fatores estilísticos, você sai da leitura com aquela sensação de ter lido algo completamente diferente do que já leu na vida. E é. Chuck conseguiu fazer um mix de referências muito interessante pra construir algo completamente seu. Não é à toa que desde aquela época, há 20 anos, ele começou a construir um público fiel que o acompanha até hoje.

Monstros Invisíveis

Chuck Palahniuk Monstros Invisíveis

Monstros Invisíveis foi o primeiro livro escrito por Chuck Palahniuk. Reza a lenda que ele o apresentou à editora, que prontamente recusou por ser perturbador demais – o que, pra mim, é sempre um bom sinal, de que o autor pensou fora da caixinha. Com o sucesso de Clube da Luta, o livro logo convenceu os editores a arriscar. Que bom que isso aconteceu, porque essa é sem dúvida uma de suas obras mais relevantes.

A começar por essa sinopse maluca:

Shannon é uma modelo que parece ter tudo na vida: beleza, fama, um namorado e uma amiga leal. Mas quando um inesperado acidente de viação a deixa desfigurada e incapaz de falar, ela deixa de ser o centro das atenções para passar a ser o monstro invisível, de cuja existência ninguém quer saber. Ninguém… a não ser Brandy Alexander, um transsexual a um passo de se tornar uma verdadeira mulher. Brandy oferece-lhe, então, a oportunidade de encontrar um novo destino, apagando o passado. Depois de sequestrarem Manus, o namorado de Shannon, as duas fazem-se à estrada numa viagem alucinante e desenfreada. Tudo para que Shannon se possa vingar de Evie, a sua ex-melhor amiga que não hesitou em seduzir Manus.

Mas em Monstros Invisíveis, nada é o que parece. Chuck usa recursos linguísticos e de repetição que criam um ritmo sem precedentes e dão uma sensação de cortes secos, em uma narrativa desenfreada que mais parece um filme. Mais uma vez, o autor brinca com nossos conceitos de beleza, de feminino, e muitas outras definições que ganham novos contornos.

Clímax

Chcuk Palahniuk Climax

Clímax é o último romance lançado por Chuck. Coloquei ele na lista pra mostrar que o cara continua relevante, e que ele não era um one hit wonder. Nesse caso, ele explora o mundo dos bestsellers literários brincando com elementos de uma certa trilogia erótica ou então uma tal série sobre vampiros adolescentes. Tanto que o título original de Clímax era Fifty Shades of the Twilight Cave Bear Wears Prada – já deu pra entender, né?

Chuck pega esses elementos e os transforma em algo completamente distorcido e sombrio, sem deixar de ser estranhamente engraçado. A heroína do livro é uma jovem nada impressionante e completamente esquecível que se torna o foco da atenção de um multimilionário com um segredo: ele quer desenvolver uma linha de produtos eróticos para mulheres. Penny se torna então sua escrava sexual e acaba descobrindo que a conspiração vai muito além do que ela imaginava. Como a primeira cena do livro abre em um tribunal, com a protagonista algemada, você logo quer saber o que aconteceu para ela chegar até ali. A resposta é simples: as coisas escalonaram até chegar ao ponto insustentável, e quanto você acha que a imaginação louca de Chuck chegou ao seu limite, vem ele e inventa algo completamente inesperado. Clímax não é genial, mas é muito divertido.

E quais livros não ler pra começar a gostar de Chuck?

Chuck Palahniuk não é um autor como outro qualquer. Tem gente que ama, e tem gente que odeia. É difícil ficar impassível a ele, não ter nenhuma reação ao que você acaba de ler. Por conta desses extremos, alguns livros são mais recomendáveis que outros para se aproximar do universo do escritor. Por outro lado, outras obras são contraindicadas para começar a ler um autor. São livros que fariam muito mais sentido quando o leitor já está familiarizado com o estilo que ele tem de escrever.

No caso do Chuck, os livros não recomendáveis para começar são, na minha opinião…

Pygmy

Chuck Palahniuk Pygmy

Além de não ter sido publicado em Português, Pygmy é narrado todo em forma de relatórios secretos. Quem conta a história é o personagem-título, chamado de Agente Número 67 e um espião de um país não identificado – uma mistura de Coreia do Norte, China comunista, Cuba  e Alemanha nazista. Seu único objetivo é se infiltrar na sociedade americana como um estudante de high school e coordenar um ataque terrorista nos EUA. Por conta disso, muitos dos trechos são literalmente cortados, por serem, bem… secretos. Sem falar na linguagem do Agente 67, que não chega perto de ser fluente em inglês. É complicado se acostumar de cara com o jeito que ele fala.

Rant

Chuck Palahniuk Rant

O subtítulo do livro é “uma autobiografia oral”, ou seja, ela conta a história de Buster Casey, um personagem que desde o início do livro já é falecido. E são os personagens secundários que relatam sua história de vida. Por ser uma forma diferente de narrar, o livro pode ser bastante cansativo.

Tell-All

Chuck Palahniuk Tell All

Essa novela é uma espécie de homenagem à era de ouro de Hollywood, com todo o seu glamour. A história conta como uma ex-estrela de cinema, agora decadente, se vê nas mãos de um novo e misterioso amante (e como sua fiel empregada desconfia do novo namorado, criando um triângulo pra lá de tenso). Mas Tell-All abusa de recursos muito usados por Chuck, em especial as repetições, e pode se tornar uma leitura bem menos divertida que seus outros livros.

E vocês, já conhecem a obra do Chuck? Que livros recomendariam para quem quer começar a se envolver com o universo do autor?

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