Aquele momento em que a imprensa é trollada pelo Foo Fighters

O Foo Fighters sabia que tudo que a banda precisava fazer era um anúncio misterioso – e todas as pecinhas cairiam em seus lugares. E as pecinhas, claro, são os jornalistas loucos pra conseguir uns cliques a mais.

Era só entrar em sites grandes como o Consequence of Sound ou o da revista NME para se deparar com as especulações sobre o fim do Foo Fighters – afinal, Dave Grohl cantou sozinho na cerimônia do Oscar. Se isso não é um sinal, o que é?

Como a banda deve estar cansada de ver esse tipo de notícia no clipping da assessoria (eu sei que eu estaria), eles aproveitaram pra tirar onda com a cara de todo mundo que estava tentando prever seu fim com base em uma premiação de cinema e uma declaração do baterista Taylor Hawkins de que eles “estavam precisando de uma folga”. Não sei você, mas eu não faço turnês mundiais e ainda assim tô pedindo arrego toda semana (lá pela terça-feira).

O único motivo de o Foo Fighters gastar tempo e dinheiro pra produzir esse tão aguardado anúncio é este: sem dúvida alguma, os tão conceituados veículos de comunicação especializados em música iam aproveitar a oportunidade para fazer a boa e velha especulação. E sinceramente, essa é uma palavra que não cai bem nem no mercado imobiliário, imagina no mercado de notícias?

Não vamos nos enganar: é um mercado. E, como toda boa indústria, a da informação precisa sobreviver atraindo investimentos, no caso, publicidade. Anúncios vêm com relevância. Relevância vem com estatísticas. Estatísticas vêm com cliques. Simples assim. E, se eu fosse um jornalista cuja sobrevivência na redação se reduzisse a “ninguém clica na sua matéria”, eu também estaria preocupada em criar conteúdo com o que eu pudesse encontrar por aí. E vem Dave Grohl com a solução para os meus problemas.

Mas, claro, o problema é mais embaixo. Na verdade, é um ciclo sem fim em que os veículos precisam encontrar novas formas de capitalizar e o leitor está cada vez mais interessado em informação rápida e curta. Todos nós alimentamos esse ciclo, clicando no link em um tweet, acompanhando ao vivo a cobertura de um canal de TV que encontra “especialistas” via Skype tão rápido quanto você abre o aplicativo pra pedir um Uber.

Não há nenhuma grande lição no anúncio do Foo Fighters, essa não é uma problematização de um golpe midiático. É apenas a constatação de que Dave Grohl trolla a imprensa simplesmente porque ele pode.

(Vale lembrar aqui um caso emblemático que aconteceu no festival de cinema de Sundance esse ano: alguns jornalistas começaram uma pegadinha elogiando uma performance de Kristen Wiig no filme AbracaDeborah, um drama sobre uma mágica cega. Claro que, com um nome desses, o filme não era real. Mas todo mundo acreditou simplesmente porque esse tipo de ~drama existencial~ com um toque de exotismo é o tipo de coisa que Sundance vende todos os anos [e eu adoro], criando os próximos filmes hypados para a temporada de premiações do ano seguinte. Embora seja um caso da própria imprensa brincando com os consumidores das suas notícias, o tiro saiu pela culatra: outros veículos, que não estavam sabendo da brincadeira, passaram a apostar em Wiig como uma das performances mais elogiadas do festival. No fim das contas, o perfil de Sundance no Twitter pediu pfvr pra galera parar de solicitar ingressos pra esse filme e eventualmente alguém descobriu que no fim das contas, essas resenhas eram um produto da nossa carência pelo próximo sucesso, o próximo filme aclamado. Algo a se pensar…]

Pra encerrar essa treta, deixo vocês da mesma forma que o Foo Fighters deixou seus fãs: com Nick Lachey.

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The Independent vai deixar de ser impresso – e isso não é tão ruim quanto parece

Então o The Independent anunciou ontem que vai deixar de circular em formato impresso. Vindo de um nome forte do jornalismo inglês, considerado bastante tradicional, a notícia pegou muita gente de surpresa. Mas, antes que a gente comece a lamentar a saída de cena de um grande jornal e que, ó céus, o que será dos pequenos, vim aqui chamar atenção pra alguns detalhes que a gente costuma nem notar quando vê uma notícia assim.

Primeiro: o Independent é o jornal nacional com menor distribuição no Reino Unido

newspaperboy

A tiragem diária é de 60 mil exemplares, mas ainda assim, fica atrás de tabloides como The Sun e Daily Mail, e nomes mais antigos como The Times, The Guardian e Daily Telegraph. Até que ponto essa lanterninha de vendas prejudicava o bolso do jornal, não dá pra saber, mas tudo indica que há uma relação e essa foi a saída para resolver a situação.

Segundo: o The Independent não está fechando, apenas vai continuar na versão digital

De acordo com dados do próprio jornal, fez sentido focar no digital porque lá não houve queda – pelo contrário. No último ano, o número de pessoas que acessam o The Independent cresceu de forma bastante impressionante: foi um aumento de 33%.

Aliás, pesquisas indicam que o digital parece mesmo ser o futuro: os dados mais recentes, de agosto do ano passado, mostraram um crescimento interessante. A internet cresceu em 5% no último ano, enquanto a audiência digital dos jornais subiu em 10%, ou seja, o dobro.

Nessa época,

  • 93% dos homens e 92% das mulheres entre 25-44 anos com acesso a internet utilizaram o conteúdo digital de um jornal;
  • A audiência digital dos jornais cresceu duas vezes mais rápido do que a própria internet, em pessoas com idade entre 18 a 44 anos;
  • Metade das pessoas que leem jornais digitalmente acessam esse conteúdo apenas no celular ou tablet; sendo que 80% do público mobile dos jornais se concentra apenas no smartphone para ler notícias.

Esse é um gráfico que mostra esse crescimento ao longo de um ano:

jornaldigital

Terceiro: dos 150 funcionários, parte será demitida (não foram informados números concretos); mas outros 25 postos de trabalho foram criados no departamento digital e o The Independent vai abrir novas sucursais na Europa, Oriente Médio e Ásia, além de montar uma base de operações em Nova York.

Infelizmente, o desaparecimento de funções é algo que faz parte desse mercado desde que o jornalismo é jornalismo. Isso porque ele exige tecnologias e funções que são um resultado direto de seu tempo e, na medida em que vão surgindo novas soluções de comunicação, outras vão caindo em desuso. Nós mesmos fazemos isso o tempo todo, mas no caso de um jornal, o resultado direto disso é o corte de funcionários.

Isso não quer dizer que outros não serão contratados, apenas que um profissional X em uma função específica pode não ser necessário naquele departamento no momento. E, como o bom jornalismo ouve os dois lados, que tal lembrar que hoje existem funções dentro de todos os maiores jornais que eram impensáveis 10 anos atrás? (Estagiário de redes sociais, estou falando com você!)

MarketingLikeANewsroom

Claro que muitas das funções que estão indo por água abaixo com a crise do impresso ainda são importantes para o jornal, e seu desaparecimento não é uma consequência do desuso, e sim da pressão financeira sobre os jornais agora, que tentam manter suas margens de lucro enquanto os anunciantes vão investir em outras mídias. Uma das que eu mais lamento é a saída de cena do ombudsman, um jornalista dedicado a criticar o trabalho do próprio jornal e apontar erros, posicionamentos editoriais, escolhas gráficas e muitas outras atitudes questionáveis que os jornais cometem todos os dias. O ombudsman é a consciência crítica do jornal, e ele é cada vez mais raro.

Mas hoje acontece algo curioso. Antigamente, um bom jornal não abriria mão de seu copidesque, aquele senhorzinho de cabelo branco que tem muita bagagem linguística para corrigir todos os erros e inadequações de um texto antes de ele chegar às gráficas. Hoje, muitos argumentariam que, entre manter o copidesque e o estagiário das redes sociais, o último pode ter um valor muito maior para o jornal no contexto geral. Uma matéria sem a concordância certa é algo que vai pegar mal entre alguns leitores (e, vez ou outra, causar alguma confusão pela falta de clareza). Mas de nada adianta ter um texto perfeito e cristalino se ele não vai chegar a ninguém. E é aí que entram as redes sociais.

Quarto: o digital abre uma gama de novas possibilidades para conquistar o anunciante

A versão digital dos jornais brasileiros já traz anúncios de página inteira que se mexem com o seu toque e são interativos. Isso é o mais próximo que conseguimos chegar até agora de um Profeta Diário, o jornal do mundo mágico de Harry Potter. Mas dá pra pensar em várias outras possibilidades, uma facilidade que o digital proporciona. Tudo é fluido, tudo é adaptável, e até pode gerar peças publicitárias que engajem muito mais o leitor do que uma imagem estática numa página impressa.

Por isso, vale aqui o bom e velho clichê de todo esse longo debate sobre o futuro do jornal impresso: estamos em um momento de transição e ainda é difícil dizer no que isso vai dar, no longo prazo. Mas fica claro que o jornalismo é fluido e muda de acordo com tempo que reporta. Está no momento de cada profissional do ramo repensar seu papel, se inteirar dos próximos passos e torcer para que a Grande Empresa Jornalística também aprecie seu valor.

Ou seja, sem banalizar a perda de emprego desses profissionais (o que é uma situação no mínimo nada agradável, pra qualquer um), o que fica dessa história é: há uma luz no fim do túnel. Por muitos anos, o jornalismo vem sendo visto de forma bastante apocalíptica. De um lado, o lucro que só cai. Do outro, uma conduta ética questionável – e não só no Brasil, não só no impresso.

Mas o fim da circulação em papel não pode ser visto como um reflexo dessa crise, simplesmente porque todos os negócios que têm no papel sua base de operação estão deixando a celulose pra trás e focando em simplificar e economizar esse processo. Essa talvez seja a primeira vez que o jornal é obrigado a lidar com esse dilema e tem de repensar aquilo que o mantém vivo: o anunciante.

Pode até parecer uma escolha, uma opção pelo digital, mas a verdade é que estamos caminhando a largos passos para trabalhar cada vez mais com arquivos, com a nuvem de informações que paira sobre nossas cabeças todo dia e some com um simples arrastar para a lixeira (uma que não vai parar no aterro sanitário da sua cidade). O jornal não tem outra opção a não ser se adaptar a essas formas como produzimos e consumimos informação, algo que muda um pouquinho todos os dias.

A decisão de abandonar o papel é apenas uma dessas fases, e o que pode ser o início de um negócio muito mais integrado ao seu tempo – ou então um grande fracasso, uma mudança para a qual o leitor ainda não estava pronto. Só o tempo dirá (e não as colunas que preveem o fim do jornalismo a cada impresso que sai de circulação).

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Filmes que definem o jornalismo

Aproveitando a estreia de “Spotlight – Segredos Revelados”, o site Cinema de Buteco reuniu em uma só lista os principais filmes que discutem o fazer jornalístico, de alguma forma. Nem sempre a gente para pra pensar que a imprensa, esse imenso quarto poder, está por trás de grandes histórias, acompanhando e influenciando diretamente o seu desenrolar.

Nessa lista, dá pra se divertir e se emocionar com muitas histórias onde uma entrevista, uma matéria investigativa, uma foto ou uma manchete foram responsáveis por guiar o desfecho de personagens, de governos, de indústrias inteiras. De George Clooney a Billy Wilder, de Brian de Palma a David Fincher, conheça algumas das melhores histórias sobre jornalismo nessa compilação do Cinema de Buteco, da qual tive o prazer de participar!

Clique AQUI para ler!

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