Invisível

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Criou coragem e sentou no banquinho. Não via um desses há tantos anos que nem se lembrava mais. Esticou os dedos diante de si, com as teclas levemente amareladas ao fundo, tocadas por um sem número de mãos estranhas. Umas ficavam mais tempo que outras, mas todas passavam. Para pegar o trem pro Brás, Barra Funda, Grajaú.

Mas ele tinha tempo pra matar. Enquanto testava a maciez do pedal, observou a dança de cartões de metrô, mochilas que ziguezagueavam por entre as pessoas e sumiam aos pulos entre um degrau e outro da escada da estação.

Então tocou uma nota. Nada pareceu mudar. Decidiu arriscar mais uma, e outra depois daquela. Não tinha partitura, mas aos poucos os dedos foram lembrando do caminho e se deixaram levar. Passearam pelas teclas brancas e pretas com a mesma suavidade do trem que chegava à estação lá embaixo. Quase podia enxergar as notas que saíam do piano e pareciam envolver o instrumento colorido. Bastava fechar os olhos para a luz e vê-las pulando sobre as próximas teclas, numa dança só pra ele.

Não atraiu ouvintes. No máximo, uns olhares curiosos, que passavam com pressa, talvez procurando uma placa ou um guichê. Não se importou. Tinha descoberto a fórmula da invisibilidade.

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Alone in the dark

Ela não se importava em ir sozinha. Até gostava. Assim, deixava de se preocupar com a preferência de assentos do acompanhante – mais à frente ou nas fileiras de trás? – e não teria de dividir a pipoca com ninguém. O bilheteiro do cinema já não estranhava.

— Meia entrada, por favor.
— Só uma?
— Só.

Ela então se dirigia à bombonière, pedia o combo pequeno de pipoca e refrigerante (às vezes light, pra amenizar a culpa) e ansiosamente esperava para que a fila começasse a andar. Olhava ao seu redor e não deixava de notar que, frequentemente, era a única pessoa ali sem um acompanhante. Se confortava ao lembrar que, na sala escura, nem notariam sua solidão.

E então a tela se iluminava. Cada minúsculo pedaço de luz que vinha em sua direção desenhava em seu rosto um sorriso. E a cada ida ao cinema, ela tinha aquela sensação de que presenciava algo mágico, como se fosse a primeira vez. Se esquecia do mundo lá fora, e criava um novo mundo para si, em que tudo era possível.

Quando os créditos subiam, ela era puxada de volta para a realidade. E saía da sala com um sorriso no rosto.

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Silêncio no salão

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Todas falavam juntas. O aniversário de 15 anos da filha da vizinha, que teve comes e bebes de menos e convidados demais; o casamento da colega de trabalho, que já namora há 10 anos; aquele especial do Globo Repórter sobre alimentação saudável. Falavam enquanto tinham seus cabelos pintados e alisados, as unhas feitas.

E ela ali, no canto sombrio da depilação de sobrancelhas. Não ousava abrir os olhos, muito menos a boca. Só observava as escovas, as pinças, os secadores.

E, em meio a tantas mulheres, se sentia só.

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