Tudo É Cópia & The Most of Nora Ephron

Ando numa fase muito Nora Ephron. Tudo culpa de “The Most of Nora Ephron”, livro lançado em 2013 pela Knopf com uma antologia de textos da jornalista, roteirista e diretora. A coletânea chegou a ser planejada pela própria Nora, que não chegou a ver o resultado – ela faleceu em 2011, vítima de pneumonia em consequência de uma leucemia que combatia há anos.

Mas ninguém sabia disso. Nora manteve esse segredo dos amigos mais próximos, escolhendo focar no trabalho sempre que pode. Nesse meio tempo, lançou filmes, viu sua primeira peça ser encenada (com Tom Hanks como protagonista – nada mal) e virou blogueira, contribuindo com textos bem-humorados e insights sagazes para o Huffington Post. Esse segredo é o ponto de partida de “Tudo É Cópia”, documentário que assisti logo que terminei de ler o livro. A produção da escritora e diretora nos últimos anos é só a pontinha do iceberg do legado que ela deixou, e é isso que tanto “The Most of Nora Ephron” quanto “Everything is Copy” tentam fazer – encapsular essa mulher incrível em algumas páginas, alguns minutos de filme.

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Não dá, mas há que se dizer: são duas ótimas tentativas. O livro é um bom ponto de partida para entender mulheres, ambição, relacionamentos, mídia e jornalismo, isso só pra citar os temas mais óbvios. Mas é, principalmente, um atestado de versatilidade de Nora Ephron, desde o início de sua carreira como repórter. Dividido em seções como “A ensaísta”, “A autora de perfis”, “A blogueira” e entrecortado por um romance (“Heartburn”), um roteiro completo (“Harry & Sally – Feitos um para o outro”) e uma peça (“Lucky Guy”), essa é uma coleção de reflexões sobre a vida da forma mais cândida e sincera possível. Pense em Sally, à la Meg Ryan, falando verdades a torto e a direito sobre assuntos que vão do fim de um casamento ao surgimento do movimento feminista, passando por receitas narradas com a empolgação de alguém que só poderia ser uma apaixonada por comida até as mazelas do governo Bush e da guerra que ele desencadeou.

O que “The Most of Nora Ephron” revela é uma autora que ousou ser a protagonista de suas próprias histórias. Não porque Sally seja um retrato dela mesma – e talvez seja, em muitos aspectos -, mas porque sua ambição não permitiu que ela fosse relegada a segundo plano. Nora ousou começar uma matéria jornalística na primeira pessoa, certamente desconstruindo o padrão que aprendeu naquela faculdade conservadora e apenas para mulheres que ela frequentou. Ousou colocar tanto de si mesma nos defeitos e franquezas de suas personagens. Se recusou a aceitar numa boa o fim do casamento com Carl Bernstein (aquele mesmo, que com Bob Woodward trouxe à tona um dos casos jornalísticos mais icônicos já vividos pela imprensa, o Watergate). Trocando o nome dos personagens, deu vida à história de “Heartburn”, vendeu milhares de cópias e o direito para as telonas – o que, no fim das contas, fez com que ela fosse interpretada por Meryl fucking Streep.

E é aí que a gente chega no documentário “Tudo é Cópia” (que a HBO vai exibir até o final de novembro). No comando do filme está ninguém menos que Jacob Bernstein, filho de Nora Ephron e Carl Bernstein – um sujeito que teve tanto jornalismo no DNA que acabou não tendo muita escolha na vida. Virou jornalista e colocou no filme o seu olhar analítico pra entender quem foi a mãe – aquela repórter que chegou abalando com vinte e poucos anos em Nova York; que formou um casal poderoso com seu pai até o fim do relacionamento; que trocou de profissão e ainda assim deixou sua marca, especialmente na forma como as mulheres são retratadas no cinema. Tem muita imagem de arquivo, desde os anos 50, mas tem também depoimentos do nível “eu me esforçava pra ser engraçado perto dela, queria impressioná-la” (por ninguém menos que Steven Spielberg) e leituras dramáticas feitas por nomes como Reese Witherspoon, Meg Ryan e Lena Dunham dando voz a alguns textos que integram “The Most of Nora Ephron”.

Por isso, não é preciso ser fã de “Mensagem Pra Você” ou “Sintonia de Amor” para se ver fascinado pela personagem que a própria Nora Ephron foi. Assim mesmo, cheia das suas contradições e defeitos, mas também repleta das tiradas geniais que influenciaram toda uma leva de mulheres contadoras de histórias – a própria Dunham, Amy Schumer, Mindy Kaling, Tina Fey. Antes delas, foi preciso que outras tantas ousassem criar mulheres tridimensionais, escrevessem personagens ricas, e Ephron faz parte do grupo seleto de criadoras que abriram espaço para tantas outras.

Nora Ephron é Sally, é Julie, é Annie, é Kathleen. E nós somos todas elas. Só me resta dizer, mais uma vez: Obrigada, Nora.

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Mulheres na comédia – um documentário

Não faz muito tempo, peguei passando um documentário no GNT, daqueles de fim de noite. Achei que ia continuar zapeando, mas não consegui. Era hipnotizante ver aquelas comediantes geniais em cena, fazendo stand up, filmes, sitcoms.

Mas é um documentário um tanto quanto agridoce. Ao mesmo tempo em que mostra uma Joan Rivers abrindo espaço para nomes como Amy Schumer e Tig Notaro, que tanto admiramos hoje, o debate que acontece ali é desanimador. Ele mostra o quanto as mulheres ainda têm um longo caminho a percorrer quando o assunto é o que podemos falar e de que forma podemos dizê-lo.

Independente disso, o que fica mesmo, no fim das contas, são os momentos brilhantes proporcionados por nomes como Sarah Silverman, Roseanne Barr, Kathy Griffin, Phillys Diller e Mary Tyler Moore. A boa notícia: tá tudo no YouTube!

Assista abaixo:

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“Graça Infinita” e o problema com as expectativas

Não sei se foi instantâneo, mas em algum momento entre a publicação da primeira edição e a chegada do livro ao Brasil, em 2014, “Graça Infinita” se tornou não apenas a grande obra-prima de David Foster Wallace, como ocupou um dos mais cobiçados postos da literatura mundial: o de “grande romance americano”. Talvez o título tivesse tanto a ver com o a grandiosidade da obra quanto com a sua extensão, já que o livro tem lá suas mil cento e poucas páginas.

Era novembro quando o calhamaço branco e laranja chegou às livrarias, e não deu noutra. Muita gente comprou para presentear no Natal, e uma boa leva de leitores, blogueiros e booktubers começou 2015 com o projeto de ler “Graça Infinita”, esse lançamento fresquinho da Companhia das Letras, com tradução de Caetano W. Galindo. Mas já fazia quase 20 anos da sua publicação nos Estados Unidos. Nesse meio tempo, o romance de Foster Wallace ganhou ares de cult e viu o autor subir ao alto escalão de grandes romancistas, gerar buzz para as coletâneas de contos e textos de não-ficção que viriam a seguir e presenciar o fim do escritor, morto em 2008 pelas próprias mãos.

Leitora de Jonathan Franzen que sou, era apenas questão de tempo até eu me aventurar pelas páginas do Foster Wallace. Por isso comprei “Graça Infinita” cerca de 2 anos antes, em uma edição que, quando chegou nas minhas mãos, pouco me animou pelo tamanho da página, pelo tamanho da letra, pela qualidade do papel. Tentei ler mesmo assim, sem sucesso. Abandonei lá pela página 50. Aí pensei que a melhor forma seria ler no digital, então comprei a mesma edição na loja do Kindle e recomecei a leitura pelo iPad. Mas algo ainda não estava certo, pois eu não conseguia me conectar com a história. Deixei de lado e só voltei ao livro quando a Companhia fez o lançamento nacional. Mas a terceira tentativa também não vingou. Por mais que reconheça que a tradução de Galindo seja um feito por si só, algo nela me afastava do livro. Até que, pra começar 2016, decidi fazer mais uma investida no melhor clima de resolução de ano novo e ir até o fim.

Deu certo. Mas só com muito esforço e dedicação. Até a linha de chegada, foi uma troca incessante de formatos, em uma tentativa de manter o livro mais interessante e de não deixar o peso das páginas me desanimar. Fui do físico traduzido para o Kindle, para o iPad, para o físico original. Resultado: gastei sete meses lendo um livro, algo impensável pra mim desde… sempre. Sem dividir a atenção com quase nenhum outra obra, ainda assim “Graça Infinita” foi um fardo pra mim, desde o início. Esperava que em algum momento aquela experiência se tornasse algo significativo, mas esse momento nunca chegou.

A única coisa que mudou entre janeiro e agosto foi que agora posso dizer que li “Graça Infinita”, e essa nunca foi a minha motivação para ler o livro. O que me motivou a apostar nessas mais de 1.100 páginas foi ler uma sinopse, por acaso, no site de uma livraria. Realmente acreditava que seria uma leitura irresistível e contundente sobre esse nosso vício por entretenimento. E essa de fato acaba sendo a temática principal do livro, aparecendo de várias formas além da premissa principal – a de que existe um misterioso filme que as pessoas não conseguem parar de assistir, a tal ponto de chegarem à morte presas a seus sofás.

Mas “Graça Infinita” não é, e não poderia ser, apenas isso. E foi aí que o livro me perdeu, se embrenhando por personagens sem fim e capítulos inteiros sem um propósito aparente. Muitos deles foram trechos soltos de histórias independentes que pouco tinham a acrescentar ao plano geral da trama. Sem falar nas centenas de páginas de notas de rodapé, que mandam o leitor para o final do livro apenas para ler uma bibliografia referente a um livro que nunca poderá encontrar (porque só existe no mundo de Foster Wallace); um sic para indicar uso incorreto da palavra no texto; uma descrição detalhada de certos medicamentos e seus ingredientes. Algumas das notas eram inseridas no meio de uma frase e, quando o leitor pulava para o final do livro, se deparava com até 20 páginas sobre um assunto que não tinha qualquer relação com o que estava sendo lido lá na frente.

Um simples diagrama para compreender a trama de "Graça Infinita"
Um simples diagrama para compreender a trama de “Graça Infinita”

Tudo indicava que David Foster Wallace estava fazendo seu próprio infinite jest, uma piada sem fim, um experimento em saber até onde o leitor o acompanharia para descobrir o que se passava naquele universo improvável. Agora que saí aqui do outro lado do túnel depois de uma longa viagem, me vejo frustrada com uma leitura em que apostei tanto. Não foi por não entender o livro, apesar de saber que, inevitavelmente, muito se perdeu nesses sete meses de leitura, detalhes foram esquecidos, personagens se tornaram um borrão na minha mente. Mas por mais que eu não encontre prazer em leituras fragmentadas como essa, a minha decepção com “Graça Infinita” foi muito mais pessoal que literária. Afinal, quem apostou todas as fichas em um livro do qual nunca tinha ouvido falar fui eu. As longas resenhas que vi depois com as minhas booktubers favoritas só fizeram aumentar essa expectativa.

O motivo de esperar tanto de um autor que eu nunca tinha lido? Nem sei. Talvez a proximidade de Franzen, um cara prolixo mas que gostei muito de descobrir. Talvez o status alcançado ao longo dos anos. Mas de uma coisa não tenho dúvidas: o número de páginas teve um grande peso (quase literal) em me fazer acreditar que eu ia sair daquela leitura com uma outra percepção, nem que fosse sobre os temas principais do livro. No final, quando fechei “Graça Infinita” pela última vez, ficou aquela sensação de inadequação: ué, mas se todo mundo fala que esse é o grande romance americano, por que então eu não achei tudo tão incrível e genial assim?

A resposta é simples: porque eu não sou todo mundo e cada um é cada um. E mesmo esse “todo mundo” tem as suas próprias percepções, bagagens, ene fatores que fizeram com que eles chegassem nesse livro no momento certo da vida, se dedicassem com afinco e ainda dissessem no final: êta que livro bom! Eu não sabia, mas essa era uma leitura com uma improbabilidade enorme de me agradar. Porque não gosto da sensação de não saber qual personagem é qual. Porque me cansam as interrupções constantes com notas de rodapé. Porque não curto certas experimentações a não ser que sinta que elas têm um propósito.

Ainda assim, não me arrependo da experiência de ler “Graça Infinita”. Não dá pra tudo ser incrível, perfeito, genial. Já falei sobre essa pressão de que toda obra seja transcendental, e estou super de boas quando uma ou outra não é. Cheguei em um momento da minha experiência com livros, séries, filmes, etc. que conheço tão bem o meu gosto e tenho tão pouco tempo a perder nessa vida que dificilmente tomo decisões arriscadas e que sejam tão nada a ver com o que me deixa feliz. Vez ou outra, ler um livro que deixa a gente de mau humor dá um sacode, tira da zona de conforto e nos obriga a entrar em contato com o que normalmente nos afastaria. Então por isso sou muito grata a Foster Wallace. Afinal, um dos pontos de “Graça Infinita” é repensar a nossa constante necessidade de nos sentirmos entretidos e não termos vontade de flexionar os músculos do cérebro e colocar os neurônios pra dançarem em outro ritmo.

Quero acreditar que, apesar de meu relacionamento de amor e ódio com o livro, não senti tanta falta de uma literatura mais “digestível”. O que não me impede de questionar o que diabos estamos pensando quando recomendamos a alguém “aguenta só até a página 200/300, depois melhora” – um conselho que li algumas vezes enquanto tentava buscar informações sobre o livro. É verdade que melhora? Sim. Também é verdade que eu já insisti em leituras que me pareciam intermináveis no início apenas para achar incrível no final (“Cem anos de solidão”, estou falando com você!)? Sim, também é verdade. Mas o que nos leva a achar OK um escritor fazer um preâmbulo de centenas de páginas até nos pegar de vez? Quem tem tempo pra ler tanto apenas com o incentivo de chegar à página X, quando tudo vai fazer sentido? Spoiler alert: não faz. Nem tudo faz sentido e se tem algo te dizendo, desde o início, que você está lendo o livro errado, no momento de vida errado, é porque você provavelmente está lendo o livro errado no momento de vida errado.

Ler um livro é um dos maiores comprometimentos que a gente faz culturalmente. Assistir uma temporada de Stranger Things só pra ver qual é vai te tomar algumas horas; ouvir um disco, um filme, alguns minutos. Mas um livro é um compromisso real, daqueles que a gente leva pra rua, anda de mãos dadas e apresenta pros pais, cheios de orgulho. Tem que rolar alguma sintonia, nem que seja uma fagulhazinha pra aquecer o coração e te dizer, lá no fundo, que vai ficar tudo bem.

Eu sei, estou me contradizendo. Mas continuo achando OK ler um livro mais ou menos, desde que você queira de verdade (eu queria de verdade). Também acho OK abandonar livro porque é mais ou menos, porque a vida é curta demais (eu abandonei “Graça Infinita” não uma, não duas, mas três vezes). O que não é OK é a gente acreditar que autor X ou Y vale o investimento de 300 páginas. Eu, fangirl assumida de um monte de escritor, estou aqui pra te dizer que não, não vale. Porque aquele autor não tá ali pra te agradar 100% do tempo. Porque tem mais um monte deles publicando coisas incríveis, na livraria da sua cidade, no Wattpad, no Kindle. Porque a última coisa que a gente quer quando lê é ficar amargurada com a vida.

Então encontre o que te faz feliz. E leia até chegar o fim. Depois encontre mais algum livro que te faça feliz, e continue fazendo isso pelo resto da vida, porque é uma descoberta deliciosa <3

Pra encerrar esse textão, deixo aqui uma representação do que eu tive vontade de fazer ao longo de todos esses meses (mas não fiz, porque é pecado).

Depois de “Graça Infinita”, já li um livro bem legal. Conto pra vocês depois!

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A volta das acusações contra Woody Allen e porque devemos fazer as perguntas difíceis

Ronan Farrow é filho de Woody Allen e irmão de Dylan Farrow, que no ano passado veio a público com a grave denúncia que o pai a havia molestado aos 7 anos. Dylan escreveu sobre o caso no New York Times, o que imediatamente trouxe um turbilhão de notícias antigas à tona, especulações e levou o próprio Woody a escrever uma réplica no mesmo jornal. Até que o caso foi esquecido e tudo voltou ao normal. Vida que segue.

Alguém ficou surpreso? Não. Apesar de extremamente graves, as acusações de Dylan talvez nunca sejam comprovadas, considerando que o crime teria acontecido em 1993 e possíveis provas podem ter se perdido. Mas a coluna de Ronan Farrow no Hollywood Reporter, publicada no mesmo dia em que Woody brilhava no tapete vermelho de Cannes estreando filme novo, me fez repensar o caso. E perder o sono após ler o texto tarde da noite.

O que ele denuncia na coluna não é necessariamente uma punição para Woody Allen, um cara que, querendo ou não, conquistou um respeito como cineasta que parece protegê-lo desse tipo de escrutínio – o que não era o caso no início dos anos 90, quando ele foi duramente criticado por assumir um relacionamento com a filha adotiva de Mia Farrow, à época sua namorada. O que mais incomoda no texto de Ronan, no melhor dos sentidos, é a constatação de que público e, principalmente, imprensa se esquivam de fazer as perguntas difíceis. Ele cita o caso de Bill Cosby, que soma dezenas de acusações de mulheres por abuso sexual ao longo dos anos e cuja repercussão do caso não foi além da denúncia inicial. As vozes daquelas mulheres se perderam entre tanto burburinho.

Me lembrei do texto que escrevi aqui quando o caso de Dylan veio inicialmente à tona e me envergonhei. Relativizei uma denúncia que, mesmo que não comprovada, precisa ser respeitada. O mesmo vale para a presunção de inocência a que todo acusado tem direito, no entanto ela não nos isenta de perguntar, questionar, buscar compreender. Ronan expõe uma série de fatores que no fim das contas nos fazem valorizar um lado da história em detrimento de outro – curiosamente, o outro é quase sempre o da voz mais fraca, menos relevante, menos poderosa. O que podemos fazer para mudar isso? Vale muito a reflexão e a leitura da coluna. Confira aqui.

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Uma cadeia de cinemas quer permitir o uso de celulares durante o filme – e essa ideia não é tão louca assim

Não sei você, mas pra mim, uma ida perfeita ao cinema exige mais do que um filme bom. Se for pra ver filme bom, eu vejo em casa e gastando muito menos – o Netflix está cheio deles. Mas ir ao cinema é um ritual que envolve escolher o lugar perfeito, aquele papo sobre expectativas para o filme na fila da pipoca, assistir os trailers, de preferência, sem ninguém chutando minha cadeira. E, pra ser bem sincera, dá pra dizer que gosto  muito mais quando não tem alguém do meu lado acendendo o telefone entre uma cena e outra.

Mas essa sou eu. Muita gente prefere se comunicar com o mundo externo durante o filme, algo longe de ser exclusivo do ambiente do cinema. Somos uma geração que ou aprendeu a amar e depender do smartphone, ou nasceu com ele na mão. Levamos pro banheiro, pra cama, pra reunião de trabalho, pra aula na faculdade, pra viagens românticas, pra velórios. Faz parte da revolução que a comunicação vem passando cada vez mais rapidamente, facilitando a nossa vida e entregando soluções e ferramentas tão úteis e interessantes quanto consumidoras de tempo. E foi assim que chegamos ao ponto de desenvolver ansiedade por uma bateria descarregada, cada vez mais respondemos emails de trabalho à uma da manhã e criarmos os rehabs pra quem não consegue abandonar essa nova extensão do próprio corpo.

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Agora, quem não consegue largar o celular (ou simplesmente não tem essa opção, por motivos profissionais) vai poder mandar mensagens no meio do filme sem ser censurado. Isso porque a rede de cinemas americana AMC anunciou que pensa em permitir o uso de celulares durante os filmes. Tudo em nome de apelar para um público que se recusa a abrir mão desses recursos, mesmo que por pouco tempo, e ampliar o número de frequentadores das salas. Tão logo o anúncio foi feito, a internet entrou em polvorosa, criticando a rede e a acusando de abrir mão do bom senso apenas para aumentar os lucros.

Eu, adepta do bom e velho modo avião, não curti a ideia de ter uma luz na cara durante o filme – isso se eu morasse, sei lá, no Upper West Side, já que perto da minha casa não tem AMC -, mas aí percebi que a sugestão da rede não tem nada de maluca. Na verdade, é bem simples: temos aqui uma parcela significativa da população que é dependente dessa tecnologia e boa parte dessas pessoas pode até deixar de ir ao cinema pra não ficar longe do smartphone. Porque precisam, porque ficam ansiosas, porque querem mandar mensagem pra saber se os filhos continuam vivos numa daquelas noites que o casal tirou pra si. E aí do outro lado nós temos uma indústria que recebe uma sentença de morte semana sim, semana não. Sabe como é, o Netflix vai dominar o mundo e vai acabar não só com as HBOs da vida, como com os noticiários, os canais de esporte e, claro, com o cinema (onde já se viu disponibilizar um filme online no mesmo dia da estreia nas salas?).

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É só fazer a conta pra perceber como os executivos da AMC chegaram a essa conclusão. O outro lado da discussão não deixa de ter razão, dá pra questionar essa possibilidade de várias formas, mas o grande ponto que muita gente está ignorando é que uma empresa enorme viu potencial de mercado em um fato inegável: não conseguimos largar nossos telefones e estamos altamente dependente deles. Não estou falando do fato de que não memorizamos mais números dos amigos, e sim daqueles momentos em que não dá pra ignorar uma notificação, em que você dá uma olhadinha na tela quando vira na cama durante a noite ou até naqueles em que é cobrado responder todas as mensagens de WhatsApp, seja de trabalho, seja da família.

É só pensar na última vez em que você fingiu que esqueceu daquele aviso que proíbe uso de celular no banco. Ou então naquele voo um pouco mais longo em que você pensou em comprar o wi-fi porque mal podia esperar pra postar aquela foto do céu, das nuvens, do pôr-do-sol. Naquele parente viciado em Facebook, aquele amigo que sofre abstinência do Snapchat. Já era: fomos longe demais e agora todos temos essa necessidade fisiológica de conexão, nem que seja pra dar um repost, responder rapidinho um inbox, deixar um coração numa foto que logo some da timeline.

Então talvez a AMC não seja tão louca assim. Celular na sala de cinema continua não sendo nada legal, mas talvez o que a gente precisa mesmo é de repensar o hábitos. O simples fato de que precisamos correr para o Twitter desabafar essa possível mudança diz muito sobre quem somos hoje.

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