Mulheres na comédia – um documentário

Não faz muito tempo, peguei passando um documentário no GNT, daqueles de fim de noite. Achei que ia continuar zapeando, mas não consegui. Era hipnotizante ver aquelas comediantes geniais em cena, fazendo stand up, filmes, sitcoms.

Mas é um documentário um tanto quanto agridoce. Ao mesmo tempo em que mostra uma Joan Rivers abrindo espaço para nomes como Amy Schumer e Tig Notaro, que tanto admiramos hoje, o debate que acontece ali é desanimador. Ele mostra o quanto as mulheres ainda têm um longo caminho a percorrer quando o assunto é o que podemos falar e de que forma podemos dizê-lo.

Independente disso, o que fica mesmo, no fim das contas, são os momentos brilhantes proporcionados por nomes como Sarah Silverman, Roseanne Barr, Kathy Griffin, Phillys Diller e Mary Tyler Moore. A boa notícia: tá tudo no YouTube!

Assista abaixo:

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A volta das acusações contra Woody Allen e porque devemos fazer as perguntas difíceis

Ronan Farrow é filho de Woody Allen e irmão de Dylan Farrow, que no ano passado veio a público com a grave denúncia que o pai a havia molestado aos 7 anos. Dylan escreveu sobre o caso no New York Times, o que imediatamente trouxe um turbilhão de notícias antigas à tona, especulações e levou o próprio Woody a escrever uma réplica no mesmo jornal. Até que o caso foi esquecido e tudo voltou ao normal. Vida que segue.

Alguém ficou surpreso? Não. Apesar de extremamente graves, as acusações de Dylan talvez nunca sejam comprovadas, considerando que o crime teria acontecido em 1993 e possíveis provas podem ter se perdido. Mas a coluna de Ronan Farrow no Hollywood Reporter, publicada no mesmo dia em que Woody brilhava no tapete vermelho de Cannes estreando filme novo, me fez repensar o caso. E perder o sono após ler o texto tarde da noite.

O que ele denuncia na coluna não é necessariamente uma punição para Woody Allen, um cara que, querendo ou não, conquistou um respeito como cineasta que parece protegê-lo desse tipo de escrutínio – o que não era o caso no início dos anos 90, quando ele foi duramente criticado por assumir um relacionamento com a filha adotiva de Mia Farrow, à época sua namorada. O que mais incomoda no texto de Ronan, no melhor dos sentidos, é a constatação de que público e, principalmente, imprensa se esquivam de fazer as perguntas difíceis. Ele cita o caso de Bill Cosby, que soma dezenas de acusações de mulheres por abuso sexual ao longo dos anos e cuja repercussão do caso não foi além da denúncia inicial. As vozes daquelas mulheres se perderam entre tanto burburinho.

Me lembrei do texto que escrevi aqui quando o caso de Dylan veio inicialmente à tona e me envergonhei. Relativizei uma denúncia que, mesmo que não comprovada, precisa ser respeitada. O mesmo vale para a presunção de inocência a que todo acusado tem direito, no entanto ela não nos isenta de perguntar, questionar, buscar compreender. Ronan expõe uma série de fatores que no fim das contas nos fazem valorizar um lado da história em detrimento de outro – curiosamente, o outro é quase sempre o da voz mais fraca, menos relevante, menos poderosa. O que podemos fazer para mudar isso? Vale muito a reflexão e a leitura da coluna. Confira aqui.

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Novo canal no YouTube! :)

JEMT

PARA TUDO

TEM CANAL NOVO NA ÁREA

EEEEEE o/

Eu e Daniel nos unimos em mais um empreendimento, que é – TCHAN TCHAN TCHAN TCHAN – falar aleatoriedades no YouTube, porque ninguém é de ferro.

Vamos tentar fazer isso uma vez por semana. Isso sendo: falar de livros, filmes, HQs, séries, etc. Sabemos que existem 5676413541646 canais no YouTube que fazem o mesmo, mas nenhum com o nosso jeitinho, a nossa carinha, a nossa perspectiva de quem não só consome cultura aos montes, mas que também trabalha nesse meio. Daniel é escritor e eu sou jornalista, e formamos a Build Up Media, que atende a músicos, estilistas, fotógrafos e outros artistas em geral. Quer dizer: respiramos essa coisa toda, então montamos o “Cultura a Dois”.

Ou seja: vem com a gente, que vai ser legal, vai ser divertido.

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Crise de um quarto de século

De boas aqui no Globo de Ouro zerando a vida
De boas aqui no Globo de Ouro zerando a vida

Então chegou aquela época do ano. O comércio faz questão de esfregar na sua cara: acorda, mané, chegou o Natal. Parabéns por sobreviver a mais um ano e chega mais que a gente divide essa TV nova aqui em 24 vezes no cartão.

2014 foi um ano atípico, porque passou tão rápido quanto os outros, mas com muito mais emoção. Muita gente importante morreu, teve Copa do Mundo (apesar de que disseram que não ia ter) e teve Dilma reeleita (apesar de que disseram que não ia ter). Mas vai chegando o finzinho do ano e eu me pego pensando em tudo que mudou, principalmente porque eu fico mais velha em dezembro. Esse ano completo 27, aquela idade que a cultura pop nos faz acreditar ser um momento de definição na vida de uma pessoa, em que ou engata a segunda marcha, ou capota de vez.

Acho que engrenei a segundona e fui. Pensando só em um ano atrás: fundei a Build Up Media com meu noivo, que era meu namorado na época; decidimos nos casar, morar juntos e ter um cachorro imaginário chamado Thelonious, que um dia vai ganhar a forma de um golden. Agora sou jornalista diplomada, orgulhosa de me juntar à categoria. E troco emails com decoradoras, buffets, locadoras de vestidos de noiva.

Não que eu seja de ficar ruminando o passado, mas sempre vale bater uma checklist de tempos em tempos. E eu venho pensando no quanto a vida da gente muda, quase sempre para melhor. É engraçado como deixamos pra trás coisas, pessoas, vidas inteiras pela simples necessidade de adaptação. Cinco anos atrás eu estava em outra cidade, com outra profissão, outros amigos e perspectivas muito, muito menores. Já escrevi sobre isso aqui, eu sei.

Daí que eu estava lendo o livro da Lena Dunham, “Not that kind of girl (a young woman tells you what she’s ‘learned’)” e me bateu essa mesma sensação. Estou quase na página 80 e já me sentindo super próxima da LD. Ouço ela contar as próprias histórias no audiobook, acompanho no livro físico e me pego balançando a cabeça pra cima e pra baixo, concordando com pequenos sorrisos sobre cada amizade que foi pro brejo, cada cara babaca, cada trauma de infância. Já somos BFFs.

Como sua personagem em Girls, Lena gosta de escrever pequenos ensaios sobre a vida, o universo e tudo mais. São histórias reais levemente alteradas que falam sobre a relação com o corpo, trabalho, role models. Ela escreve como fala e isso dá uma autenticidade tão grande ao que ela compartilha que você só quer sentar com uma xícara de café numa mão, o livro na outra e torcer para que o sono demore a vir.

Terminei hoje uma seção de historietas de amor e sexo que ela destila como se fossem pequenas gotas de sabedoria. Sem a pretensão, mais como uma amiga contando pra outra porque evitar certos tipos de rapazes. Acompanhei momentos vergonhosos de sexo desconfortável até chegar ao namorado atual da Lena e a felicidade que faz toda a bagagem valer a pena.

E aí rolou outro daqueles momentos de concordar silenciosamente com o livro quando ela falou assim:

And now I come to him, whole and ready to be known differently. Life is long, people change, I would never be foolish enough to think otherwise. But no matter what, nothing can ever be as it was. Everything has changed in a way that sounds trite and borderline offensive when recounted over coffee. I can never be who I was. I can simply watch her with sympathy, understanding, and some measure of awe. There she goes, backpack on, headed for the subway or the airport. She did her best with her eyeliner. She learned a new word she wants to try out on you. She is ambling along. She is looking for it.

Lena e eu temos mais ou menos a mesma idade, ela um ano mais velha que eu. Temos uma admiração gigantesca pela Nora Ephron, mas nossas semelhanças acabam aí. Ela vem de uma família artística americana, frequentou uma faculdade liberal em Ohio e hoje nem se fala: é criadora, diretora, roteirista e atriz em sua própria série da HBO. Ela venceu na vida e eu ainda estou a caminho de realizar alguns dos meus sonhos – de ter um cachorro com nome de pianista de jazz a dirigir um filme com um elenco já escalado em algum documento que eu guardo na cabeça há quase 10 anos.

Fui procurar no arquivo do blog um texto que eu achei que tinha escrito sobre a tal quarter life crisis, algo que me bateu em plenos 25 anos e me transformou num clichê. Mas não encontrei, me dei conta de que não deixei esse mimimi por aqui e fiquei orgulhosa de mim mesma. Sinal de que a crise não foi tão grande quanto eu pensava.

Lena também parece estar nessa fase de olhar para trás, reavaliar o que foi positivo, descartar o que foi negativo e olhar para frente. Eu sei que eu estou, e encontrei no livro uma melhor amiga que está me dizendo que a parte mais legal ainda está por vir.

Adoro quando isso acontece.

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