2 vídeos para refletir sobre preconceito musical

Você deve ter notado que eu não apareço por aqui faz um tempo. É que tenho trabalhado demais. Sou assessora de imprensa de músicos independentes e minha função é basicamente colocar no mundo singles, clipes, discos, e levar as pessoas até eles. Na última semana, a empresa passou por uma avalanche de reações positivas à nova música da MC Carol, “Delação Premiada”, que saiu com exclusividade na Folha de S. Paulo.

Foi bonito de ver tanta gente reagindo positivamente a uma música que ousou ser política e a colocar em pauta assuntos importantíssimos, como violência policial e o profiling de pobres e favelados pela polícia. Mas claro que essa não foi a opinião de todo mundo – e nem poderia ser, porque as pessoas têm gostos diferentes e não são obrigadas a gostar das mesmas coisas.  O que mais me chamou a atenção foram comentários de leitores que criticavam a postura dos veículos que publicavam a música, acusando-os de se “rebaixarem” a certo nível. Claro que parte disso se deve ao discurso social da música; mas fica claro, nas entrelinhas de algumas dessas críticas, que a grande questão é que a linguagem escolhida para passar essa mensagem foi o funk.

Ou, bem, um trap. Se “Delação Premiada” viesse com um carimbo de gênero musical não-marginalizado e modernoso, dá pra imaginar que talvez a reação fosse ainda melhor do que a que sentimos por aqui. Foi por isso que encontrar os dois vídeos que recomendo abaixo teve um timing excelente nessas minhas reflexões.

Neste primeiro, um professor de história aborda alguns gêneros musicais que já foram marginalizados – entre eles o blues, o rock e o jazz – e que hoje são considerados mais nobres e até mesmo elitizados. Entender as causas desse preconceito nos ajuda a entender melhor outros julgamentos que fazemos no dia-a-dia e que, no fim das contas, preconceito musical muitas vezes se traduz em preconceito racial e social. É importante reconhecer que a maior parte dos julgamentos culturais que fazemos tem uma origem muito mais profunda do que parece.

Já neste outro, conheci por acaso uma série de vídeos que coloca idosos para reagir à cultura pop. Neste episódio, muitos deles ouvem Kendrick Lamar pela primeira vez com “King Kunta” e “Swimming Pools”, culminando na cereja do bolo: a apresentação do Kendrick no Grammy deste ano. A conversa começou pelo bom e velho “isso de rap não é pra mim” e acaba com reflexões importantes sobre o papel do rapper hoje e o valor do artista como alguém que propõe reflexões importantes.

Já notou que hoje em dia, tem muito mais gente ouvindo hip hop? Que você tem rappers como headliners de festivais de rock, e que de vez em quando ver um artista do gênero e surpreende todo mundo (o último foi algumas semanas atrás: Chance The Rapper)? Custou, mas o hip hop parece ter finalmente cruzado a linha de chegada, da favela para o asfalto, colocando nomes como Criolo, Emicida e Karol Conka entre alguns dos principais da cena musical brasileira hoje.

O que fez a percepção das pessoas mudar nesse meio tempo? Sinceramente, não sei.  Mas essa mudança acontece de tempos em tempos, entra geração, sai geração. O que só prova o quanto esse tipo de preconceito é improdutivo, para começo de conversa. No fim das contas, sair da zona de conforto nos faz conhecer novas perspectivas de vida – e ainda há boas chances de descobrirmos músicas incríveis, como recompensa 🙂

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Jeff Daniels volta como Will McAvoy para falar de Trump

Os fãs órfãos de The Newsroom podem matar a saudade de Will McAvoy, o jornalista que Jeff Daniels viveu na série da HBO. Ao mesmo tempo em que tinha um caráter questionável, Will fazia as perguntas mais difíceis que o público também se questionava sobre assuntos cabeludos como economia e guerra.

Agora, Will dá as caras na TV americana para comentar o embate entre Hilary Clinton e Donald Trump, que está se configurando durante as eleições primárias. Fazendo uma versão da cena mais emblemática da série, em que McAvoy é questionado por uma aluna de jornalismo o que faz dos Estados Unidos o melhor país do mundo, aqui ele rebate a afirmação de que o Trump é a melhor coisa que poderia acontecer à Hilz. Ele aponta dedos para a própria imprensa, por alimentar o monstro republicano, enquanto arrisca críticas à candidata dos democratas. Resumindo: a situação política dos Estados Unidos é bem menos glamourosa do que parece (mas digamos que, quando o assunto é caos político, nós estamos bem à frente).

Daniels é ótimo como Will e atua aqui como a voz da razão nessa eleição nada previsível.

Vale também assistir a cena que originou o vídeo acima – na minha humilde opinião, uma das melhores exibidas pela HBO nos últimos anos.

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Cindy Lauper: Girls Just Want Equal Funds

Nos anos 80, Cindy Lauper presenteou as adolescentes do mundo com um hino à sua rebeldia. “Girls Just Wanna Have Fun” é até hoje uma das canções pop mais marcantes quando o assunto são meninas que se recusam a seguir as regras.

Nada mais rebelde que essa senhora de sessenta e poucos anos subvertendo a própria música pra falar sobre um assunto bem menos divertido: a diferença de salários entre homens e mulheres. Já falei bastante aqui sobre esse assunto, mas Cindy resume muito bem essa questão com a ajuda do apresentador do Late Late Show, James Corden. É fofo, é engraçadinho, é divertido, mas não deixa de dar o recado: paguem direito as mina.

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Dicionário de gêneros: um projeto incrível do AfroReggae

Desde 2013, o grupo AfroReggae desenvolve o projeto Além do Arco-Íris, com o objetivo de empoderar pessoas trans e dar voz a elas. Agora, a ideia vai um pouco mais longe com o Dicionário de Gêneros, uma iniciativa para colocar em pauta a discussão acerca de conceitos como homem, mulher, trans, cis, não-binário, travesti e tantos outros termos que passaram a povoar os debates em torno do gênero que está acontecendo no momento.

Ou pelo menos está tentando acontecer. Há muitos entraves sociais, culturais e políticos para que a gente consiga de fato colocar essa pauta em debate – vide o deputado que, ao votar o impeachment da Dilma, fez uma associação clara entre gênero e “trocar o sexo das crianças nas escolas”. Ainda estamos engatinhando na compreensão as diferenças, em especial quando o assunto é separar gênero, sexo e orientação sexual. Mas a sociedade pede uma maior aceitação dessas e outras tantas diferenças, sejam elas sexuais, raciais, de classe social, de idade e tantos outros fatores.

Concordando ou não com uma mudança na forma como compreendemos gênero, o fato é que vivemos em um mundo cada vez mais livre para que as pessoas sejam quem elas desejam ser. E isso precisa ser discutido, a partir do momento que vai de encontro a conceitos estabelecidos há tempo tempo e que já estão intrínsecos na nossa sociedade.

Para fomentar o debate, o AfroReggae criou o site Dicionário de Gênero, onde pessoas de todas as identidades podem contribuir com a sua própria definição. Isso é importante porque não apenas garante a elxs a representatividade que merecem e precisam, como ajuda a nós, de maioria cisgêneros, a compreender melhor o outro. Porque, como bem diz a campanha, só quem sente pode definir.

Vale conferir os vídeos que fizeram para apresentar o projeto:

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Uma cadeia de cinemas quer permitir o uso de celulares durante o filme – e essa ideia não é tão louca assim

Não sei você, mas pra mim, uma ida perfeita ao cinema exige mais do que um filme bom. Se for pra ver filme bom, eu vejo em casa e gastando muito menos – o Netflix está cheio deles. Mas ir ao cinema é um ritual que envolve escolher o lugar perfeito, aquele papo sobre expectativas para o filme na fila da pipoca, assistir os trailers, de preferência, sem ninguém chutando minha cadeira. E, pra ser bem sincera, dá pra dizer que gosto  muito mais quando não tem alguém do meu lado acendendo o telefone entre uma cena e outra.

Mas essa sou eu. Muita gente prefere se comunicar com o mundo externo durante o filme, algo longe de ser exclusivo do ambiente do cinema. Somos uma geração que ou aprendeu a amar e depender do smartphone, ou nasceu com ele na mão. Levamos pro banheiro, pra cama, pra reunião de trabalho, pra aula na faculdade, pra viagens românticas, pra velórios. Faz parte da revolução que a comunicação vem passando cada vez mais rapidamente, facilitando a nossa vida e entregando soluções e ferramentas tão úteis e interessantes quanto consumidoras de tempo. E foi assim que chegamos ao ponto de desenvolver ansiedade por uma bateria descarregada, cada vez mais respondemos emails de trabalho à uma da manhã e criarmos os rehabs pra quem não consegue abandonar essa nova extensão do próprio corpo.

celular cinema 2

Agora, quem não consegue largar o celular (ou simplesmente não tem essa opção, por motivos profissionais) vai poder mandar mensagens no meio do filme sem ser censurado. Isso porque a rede de cinemas americana AMC anunciou que pensa em permitir o uso de celulares durante os filmes. Tudo em nome de apelar para um público que se recusa a abrir mão desses recursos, mesmo que por pouco tempo, e ampliar o número de frequentadores das salas. Tão logo o anúncio foi feito, a internet entrou em polvorosa, criticando a rede e a acusando de abrir mão do bom senso apenas para aumentar os lucros.

Eu, adepta do bom e velho modo avião, não curti a ideia de ter uma luz na cara durante o filme – isso se eu morasse, sei lá, no Upper West Side, já que perto da minha casa não tem AMC -, mas aí percebi que a sugestão da rede não tem nada de maluca. Na verdade, é bem simples: temos aqui uma parcela significativa da população que é dependente dessa tecnologia e boa parte dessas pessoas pode até deixar de ir ao cinema pra não ficar longe do smartphone. Porque precisam, porque ficam ansiosas, porque querem mandar mensagem pra saber se os filhos continuam vivos numa daquelas noites que o casal tirou pra si. E aí do outro lado nós temos uma indústria que recebe uma sentença de morte semana sim, semana não. Sabe como é, o Netflix vai dominar o mundo e vai acabar não só com as HBOs da vida, como com os noticiários, os canais de esporte e, claro, com o cinema (onde já se viu disponibilizar um filme online no mesmo dia da estreia nas salas?).

celular cinema

É só fazer a conta pra perceber como os executivos da AMC chegaram a essa conclusão. O outro lado da discussão não deixa de ter razão, dá pra questionar essa possibilidade de várias formas, mas o grande ponto que muita gente está ignorando é que uma empresa enorme viu potencial de mercado em um fato inegável: não conseguimos largar nossos telefones e estamos altamente dependente deles. Não estou falando do fato de que não memorizamos mais números dos amigos, e sim daqueles momentos em que não dá pra ignorar uma notificação, em que você dá uma olhadinha na tela quando vira na cama durante a noite ou até naqueles em que é cobrado responder todas as mensagens de WhatsApp, seja de trabalho, seja da família.

É só pensar na última vez em que você fingiu que esqueceu daquele aviso que proíbe uso de celular no banco. Ou então naquele voo um pouco mais longo em que você pensou em comprar o wi-fi porque mal podia esperar pra postar aquela foto do céu, das nuvens, do pôr-do-sol. Naquele parente viciado em Facebook, aquele amigo que sofre abstinência do Snapchat. Já era: fomos longe demais e agora todos temos essa necessidade fisiológica de conexão, nem que seja pra dar um repost, responder rapidinho um inbox, deixar um coração numa foto que logo some da timeline.

Então talvez a AMC não seja tão louca assim. Celular na sala de cinema continua não sendo nada legal, mas talvez o que a gente precisa mesmo é de repensar o hábitos. O simples fato de que precisamos correr para o Twitter desabafar essa possível mudança diz muito sobre quem somos hoje.

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