One Day At a Time é uma série necessária

Não é de hoje que a TV tá sambando na cara do cinema quando o assunto é diversidade, né não? Claro que o pessoal tá correndo atrás do prejuízo (viram as indicações ao Oscar?), mas a televisão (e o Netflix) acaba entrando com muito mais propriedade na casa das pessoas. Talvez por isso, One Day At a Time seja uma série muito necessária.

A sitcom que o Netflix acabou de lançar conta a história dos Alvarez, uma família cubana que se estabeleceu nos EUA quando a abuelita (interpretada pela maravilhosa Rita ‘EGOT’ Moreno) chegou à América para se libertar do regime de Castro. Lydia mora em Echo Park, Los Angeles, com sua filha Penelope, uma enfermeira recém-divorciada, e seus dois filhos, Elena e Alex.

Penelope é uma veterana do Afeganistão que voltou pra casa após uma lesão no ombro. Agora, ela precisa lidar com o fato de que não tem mais o marido – também ex-combatente e que se perdeu no alcoolismo, consequência de seu Transtorno Pós-Traumático -, com os filhos que entram na adolescência e descobrem sua sexualidade ao mesmo tempo em que precisa garantir que eles não percam suas raízes cubanas.

Pra uma comédia, One Day At a Time toca em assuntos bastante sérios, como a situação dos veteranos nos EUA, dos imigrantes, do sexismo no mercado de trabalho, da homossexualidade, do envelhecimento. Parece meio bad vibes… E é. Dá pra chorar bastante ao ver Penelope vender o almoço pra comprar a janta, mas é isso que faz a série parecer tão real, pra tanta gente.

 

Abertura da Gloria Estefan <3

Não sei se a série original, dos anos 70, tinha o mesmo tom. Mas fico feliz que a Netflix tenha apostado nesse remake, num momento político e social tão importante.

Continue Reading

3 livros para começar a ler Mia Couto

Sou fãzoca do Mia Couto desde que li o primeiro livro que comprei, “A confissão da leoa” (resenha aqui!). Isso foi em 2013, e desde então leio ao menos 3 ou 4 livros do escritor moçambicano por ano. A minha sorte é que a Companhia das Letras está publicando toda a sua obra no Brasil, com lançamentos periódicos! =D

Também é assim com a maioria das pessoas que conhecem o trabalho do Mia: elas querem falar pra todo mundo desse cara que escreve umas bonitezas. Eu mesma decidi comprar o livro após ver várias amigas compartilhando trechos de obras suas. Se você também tem essa curiosidade, vim aqui indicar três livros para conhecer a obra desse autor tão único!

Isso não quer dizer que o estilo de Mia Couto não sofra influências diversas – dá até pra associar aos brasileiros Adélia Prado e Guimarães Rosa. Mas este biólogo que se tornou escritor buscou na cultura moçambicana a originalidade da sua escrita, retratando para o mundo as dores do seu povo, mas sem deixar de lado toda a mística da língua, das religiões e dos costumes do país africano. É realmente de se apaixonar!

Uma dúvida comum a quem nunca leu literatura lusófona: é difícil? Não! Muda um pouco o estilo, a grafia de algumas palavras, mas nada que torne o texto complicado. Aliás, os termos mais diferentes ou de dialetos costumam ganhar um glossário nas edições brasileiras, sempre ao fim dos livros.

Isso significa que você pode se aventurar pelo mundo de Mia Couto sem medo! Três dicas para começar:

O fio das missangas (2004)

Este é um livro de contos da maior sensibilidade. São 29 histórias curtas, de cerca de 4 ou 5 páginas, abordando família, amores, luto, infância e vários outros conceitos que todos nós compreendemos. O mais interessante de perceber quando se lê literatura africana é que as histórias não são estereotipadas como a nossa visão do continente, e que por mais diferentes que sejam nossas experiências, temos também muito em comum. Mia Couto é brilhante em apelar pra essa nossa humanidade, cada vez mais adormecida mas que se desperta a cada novo conto. O meu livro é todo marcado com frases lindamente construídas, tanto que usei uma delas na epígrafe do meu trabalho de conclusão de curso na faculdade <3

Terra Sonâmbula (1992)

Este é o romance mais elogiado de Mia Couto, embora tenha sido publicado há mais de 20 anos (e apenas 9 após seu primeiro livro). Ganhou o Prêmio Nacional de Ficção da Associação dos Escritores Moçambicanos em 1995, além de ter sido escolhido como um dos doze livros africanos do século XX na Feira Internacional do Zimbábue. O livro entrega o interesse do autor pela história de seu país, resgatando momentos chave de Moçambique, em especial de sua guerra civil. A trama de Terra Sonâmbula permeia este momento, quando um menino e um velho utilizam um ônibus carbonizado como abrigo em sua jornada por um país devastado pelo conflito interno que se seguiu à guerra contra os colonos portugueses. Em um dos corpos que jazem à beira da estrada, eles encontram o diário do morto, que passa a intercalar capítulos entre o passado de seu autor e o presente dos protagonistas. Isso mantém a narrativa em constante movimento e apresenta olhares diferentes sobre a mesma tragédia. Terra Sonâmbula faz jus à fama que tem!

Antes de nascer o mundo (2009)

Já escrevi aqui sobre este livro que tanto me impactou (tanto que também ficou todo marcado!). É de uma beleza tão singela e uma tristeza tão pungente! Mia Couto se utiliza de uma grande alegoria, de uma metáfora para construir o mundo de Jesusalém, uma terra esquecida por Deus após o fim do mundo. É lá que habitam Mwanito, seu pai e irmão, resquícios do que restou da humanidade. Até que surge Marta, uma portuguesa em busca do marido perdido por aquelas bandas durante a guerra, e o menino “afinador de silêncios” tem seu primeiro contato com o mundo externo, que ele sequer sabia que existia. Mesmo com poucas palavras, Mwanito é um dos personagens mais ricos de Mia Couto pela inocência com que observa tudo ao seu redor e descobre mais sobre suas origens e o que realmente aconteceu com o mundo. É sem dúvida um dos melhores livros que li nos últimos anos!

Espero que goste das dicas! Já conhece o trabalho do Mia Couto? Então deixe suas próprias dicas nos comentários abaixo 😉

Continue Reading

3 novas séries estreladas por mulheres incríveis

A TV dos últimos anos está dando um baile no cinema quando o assunto é diversidade. Não bastasse sair na frente dos filmes se reinventando de uns 20 anos pra cá, a televisão está cada vez mais voltada para personagens que são gente como a gente – e não só homens brancos, cis e héteros. Apenas nesse finalzinho de 2016, rolaram três excelentes “comédias” que colocam no centro personagens femininas realmente inspiradoras. Vim aqui compartilhar com vocês essas minhas novas queridinhas <3

Chewing Gum

Grata surpresa entre as produções originais da Netflix! Tracey Gordon (Michaela Coel) é uma jovem de 24 anos que sonha em ter uma experiência sexual com seu namorado há anos, Ronald. O que poderia ser normal – uma mulher adulta expressando seus desejos – se torna uma crônica tragicômica de como é tentar encontrar seu lugar no mundo, especialmente quando se é uma mulher negra e imigrante. Michaela Coel criou a série autobiográfica, já garantiu sua segunda temporada e certamente é uma das pessoas mais engraçadas deste ano.

Better Things

Sempre gostei da Pamela Adlon, que eu mal via depois de ter desistido de Californication. Mas de uns tempos pra cá, ela vem aparecendo cada vez mais, com um ótimo papel em Louie. Agora, a atriz e Louis CK produzem sua nova série no FX, centrada na vida de uma mãe divorciada, suas três filhas e sua vida em Hollywood. Também bastante baseada na vida de Pamela e de suas próprias filhas, a série reúne em 10 episódios temáticas difíceis com um frescor e uma leveza que poucos roteiros têm. É que a protagonista vai descobrindo, junto com a gente, a melhor forma de lidar com seus problemas, por mais lugar comum que possam parecer. É libertador ver uma mãe que sequer tenta fingir que é perfeita, o que não significa que ela não se importe. Sam vacila e deixa a gente irritada, apenas para mostrar, na cena seguinte, que só está tentando dar o seu melhor, assim como todos nós. Better Things aborda sexualidade, raça, gênero e tantas outras questões pesadas sem deixar de nos encantar a cada episódio!

One Mississippi

Essa eu comecei a ver hoje, admito! Mas só de ver os créditos no primeiro episódio já dá pra sentir que essa série reúne nomes impressionantes. Além da protagonista, Tig Notaro, assumem a produção Louis CK (novamente), a roteirista Diablo Cody e a cineasta Nicole Holofcener. One Mississippi tem em comum com as outras duas séries o fato de ser inspirada em fatos da vida da própria Tig, que já foi tema de um documentário na Netflix sobre o período em que perdeu sua mãe e foi diagnosticada com câncer. Apesar de se tratar de uma comediante, a história tem um tom melancólico, com Tig reavaliando as coisas após a perda de alguém insubstituível. Já é uma das novas séries mais promissoras da Amazon, sem dúvida!

Espero que gostem das dicas! E vocês, têm alguma série legal com essa temática para me recomendar? É só deixar nos comentários!

Continue Reading

Sobre Gilmore Girls, nostalgia e expectativas

Gilmore Girls é uma das séries da minha vida. Quando pegava um episódio passando no Warner Channel, me agoniava a velocidade com que Lorelai e Rory conversavam, expondo o meu inglês mixuruca. Foi só lá pelos meus 19 que me rendi à série, quando já havia me tornado professora em um curso de idiomas e não havia mais aquele receio bobo de não acompanhar o diálogo. Logo me apaixonei por Stars Hollow e seus personagens adoráveis e excêntricos. Tanto que, pouco tempo depois, comprei todas as temporadas em DVD e assisti a série com minha mãe, também solteira e batalhadora. Eu, também, filha única.

Mas assim como a vida real raramente corresponde à ficção (e vice-versa), eu nunca fui Rory, e minha mãe era dificilmente uma Lorelai. Sempre seríamos unidas pela forte relação de mãe e filha, porém sem abrir mão das nossas diferenças. A série ajudou a colocar muitas delas em pauta, acredito até que tenha melhorado nossa comunicação, mas eu não virei a Rory, ela não virou a Lorelai, e a vida seguiu, do nosso jeito.

224_gilmoregirls_101_spr_03313r

Se é que eu esperava que Gilmore Girls fosse um catalisador no nosso relacionamento, certamente estaria fadada do fracasso. Mas essa é só uma das tantas expectativas que existem em torno da série, seus personagens, sua criadora. Gilmore Girls é uma daquelas séries que cativam como poucas, o que cria uma relação de proximidade inevitável com seus fãs. Eles se importam de verdade, tomam partido, torcem. E criam, a seu jeito, a vida que as garotas Gilmore levaram após o fim da sétima temporada.

No dia 25/11/2016, essa expectativa acabou. Amy Sherman-Palladino, a mente por trás da série, ganhou quatro episódios de uma hora e meia para guiar a história de volta para o ponto que ela queria, há 10 anos, quando encerrou sua parceria com a Warner e deixou a produção nas mãos de David S. Rosenthal. Graças à Netflix e a uma intensa campanha de fãs ao longo dos anos, a showrunner teve a oportunidade de mostrar a todo mundo quais eram, afinal, as tais quatro palavras que ela sempre imaginou para o fim da série.

Mas esse é um texto sem spoilers, por isso fique tranquila (o), aqui não há grandes revelações sobre a trama. Não é preciso saber quais são as quatro palavras para já imaginar: o público recebeu a nova Rory com certa estranheza. Isso porque algumas atitudes suas parecem não condizer com a menina tímida que conhecemos há 15 anos. Já no trailer, fica claro: ela anda meio perdida na vida, procurando seu lugar no mundo após a carreira no jornalismo não dar exatamente onde ela imaginava.

É aí que Rory se mostra indecisa em relação à sua vida amorosa, maltratando um namorado que não lhe fez nenhum mal e até se envolvendo com um homem comprometido (pra não falar num cara vestido de wookie). Não nego: fiquei um pouco decepcionada. Imaginava que, aos 32, Rory já tivesse aprendido com erros do passado (cof cof Dean cof cof) e não cedesse tão facilmente a certas inseguranças, que nada tinham a ver com os rapazes. O momento de Rory no revival é de encontrar o seu lugar no mundo, e sua vida amorosa reflete essa busca caótica. E, vendo por esse lado, percebi que, no fim das contas, essa não é e nunca foi uma história sobre esses caras. É sobre mãe e filha, seu relacionamento, suas identidades e personalidades fortes e sobre encontrar seu próprio caminho.

Relembrei alguns dos piores momentos das sete temporadas anteriores – estava tudo fresco na memória, graças à maratona que eu e Daniel fizemos. E percebi que na maioria deles, Rory saía de seu personagem certinho e ousava fazer diferente. Não raro, criava uma confusão enorme, tinha consequências dramáticas e acabava por crescer um pouquinho. Ao cortar o cordão umbilical, Rory tentava aprender com as próprias pernas – nem que fosse repetindo os mesmos erros de sua mãe. Ela precisava disso.

– Confira como foi fazer o tour da Warner em Los Angeles

E entendo que ela também precisava fazer umas besteiras. Daquelas de quem tem 32 anos, mas não precisa ter tudo resolvido na vida. Eu mesma tenho quase 29 e até pouco tempo atrás, cometia erros de julgamento igualmente adolescentes quando o assunto era garotos. Mas aprendi, assim como Rory pareceu ter aprendido ao fim do último episódio. Sempre me vi muito no personagem dela, por ser de uma cidade pequena, ter crescido num ambiente escolar de altas expectativas e por ter uma necessidade quase patológica de agradar. Essa falsa bolha de proteção acaba estourando um dia, afinal todo mundo tem que sair e encarar o mundo de frente. Por isso, consigo entender e aceitar a confusão de Rory e seu jeito de lidar com uma situação que vai muito além de Dean, Jess, Logan, Paul.

Eles são só personagens em uma história maior que eles. São importantes, bem construídos, mas que não resumem a jornada das meninas Gilmore. Dá pra dizer o mesmo de cada namorado da Lorelai (que, vamos combinar, nem sempre toma as melhores decisões), mas pouco importa. O que conta mesmo é que tivemos mais um gostinho de Stars Hollow, com tudo que tem direito: festivais na praça, neve, lanchonete do Luke, Kirk e seus empregos estranhos, ensaios da Hep Alien, referências culturais diversas, aparições de Paris Geller e Emily Gilmore, pra assustar todo mundo, e a cereja do bolo: um belo adeus a Edward Hermann e seu eterno Richard.

Foi perfeito? Foi não. Mas valeu por colocar em xeque nossas expectativas e noções de certo x errado – e, claro, por aquele quentinho no coração que a gente só sente quando volta pra casa.

Continue Reading